Bacanices da tecnologia.
Reler a biografia de Elis Regina e ouvir, pouco a pouco, todo o repertório que fez parte da vida da diva.
Do dramático tango Adiós, pampa mio, lançado na década de 40 e a primeira música que ela aprendeu a cantar, até o sensual bolero Me Deixas Louca, uma de suas últimas gravações.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
O Canto das Mulheres do Asfalto
O risco de escolher o Largo do Arouche para a encenação de uma peça de teatro ao ar livre é a concorrência. O público tem muito o que olhar, além dos atores em cima das árvores e atuando na rua, com o sinal aberto. Os galhos góticos das árvores tradicionais. O moço de cabelo azul. O jovem drogado, sorriso aberto diante da novidade na praça de sempre. A arquitetura eclética dos prédios. O gato que ri. As travestis. O restaurante francês. A floricultura. As esculturas. A miséria escancarada. As ousadias de que só São Paulo é capaz. A peça é O Canto das Mulheres do Asfalto. E, sim, olhar e ouvir o Arouche faz parte do espetáculo, em cartaz até o final de agosto.
domingo, 19 de julho de 2015
O homem velho
O tempo passou para ele. O homem está gasto. Na blusa de frio, cheia de pequenos rasgos - gola, ombro e cotovelo. Na botina cano curto, sola carcomida, um lado menor que o outro. Nas mãos, levemente trêmulas. Na pele, enrugada. Na calça, velha. Nos cabelos, brancos e ralos. No repertório, antigo e resistente. Ele grita "isso é Brasil" ao ouvir Ernesto Nazareth. Nas emoções - chora junto com o músico diante da valsa. Menos os olhos. Estes, seguem. Cobiçosos. Menos a música. Ele carrega o cavaquinho para tocar aqui, ali.
(Inspirado em personagem real que frequenta as rodas de choro da Biblioteca Mário de Andrade)
(Inspirado em personagem real que frequenta as rodas de choro da Biblioteca Mário de Andrade)
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Artigas, o gênio perseguido
Um dos grandes nomes da arquitetura moderna brasileira, Vilanova Artigas participou da criação da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo) e formou toda uma linhagem de profissionais espalhados pelo Brasil.
Em suas aulas, defendia com vigor a importância social da arquitetura. Queria que suas obras fossem compreendidas por todos, independente do repertório. Ao falar sobre o prédio da FAU-USP, divertia-se com a própria ousadia, mencionava a ausência de portas e o fato do prédio ser um lugar onde não faz frio ou calor.
Há Artigas em obras assinadas por vários outros arquitetos.
Revolucionário, corajoso, formador, referência, humanista.
Mesmo com tudo isso, foi aposentado compulsoriamente pela USP em 1969, por causa do AI-5, o ato institucional que endureceu ainda mais a ditadura militar. O motivo é o mesmo que justificou outras perseguições, torturas, mortes e exílios: era comunista.
Esse episódio é lembrado agora, em 2015, ano em que o arquiteto genial completaria 100 anos. O centenário é marcado por exposições, documentário, livro, visitas a obras, debates e bate papos.
Então, ressurge esse episódio inacreditável da história brasileira.
Em 1980, com a anistia, Artigas voltou à USP. A universidade, com toda a sua crueldade burocrática, permitiu que ocupasse apenas a cadeira de professor assistente. Logo ele, um dos pais da arquitetura moderna, o homem que usou toda a sua capacidade crítica e o humanismo para receber as influências externas, transformá-las e criar o novo, o ousado, o marcante.
Em um dos depoimentos colhidos para a homenagem ao centenário, um ex-aluno, José Armênio de Brito Cruz, conta que Artigas às vezes mostrava o seu holerite. O criador de obras emblemáticas em São Paulo e outras cidades ganhava o equivalente a R$ 500.
Outro aluno, Rui Ohtake, conta que o mestre terminava a aula e não ia embora. Gostava de conversar com os estudantes e esquecia os compromissos do escritório.
Quatro anos depois da anistia, para voltar a ser professor titular, Artigas foi obrigado pela USP a se submeter a um concurso público...
Conta Reginaldo Forti, genro do arquiteto, que ele levou a sério. Trancava-se em seu escritório para estudar, se preparar para as provas escrita e oral, enfim, para a banca examinadora.
Passou no concurso com nota 10, é óbvio, e foi reintegrado à universidade que ajudou criar. A prova na banca examinadora virou um ato político com a presença de muitos estudantes e jornalistas. Em entrevista, após a prova, Artigas deixou seu protesto. Disse que a grande universidade fez com ele uma molecagem medieval.
Sete meses depois, ele morreu.
Paulo Markun, amigo da família, considera importante lembrar nos dias atuais que a principal universidade brasileira, o centro de pensadores, foi capaz de se submeter à imbecilidade dos ditadores brasileiros. A palavra imbecilidade é por minha conta.
Não foi só isso. Antes, Artigas precisou passar um período de exílio no Uruguai. Foi encontrado por amigos na miséria, em um cortiço, Também arquiteto modernista, também perseguido, Paulo Mendes da Rocha participava nessa época de um esquema de "guerrilha" que permitia a Artigas encontrar a mulher e os filhos em um "aparelho" da resistência nos anos de chumbo.
Entre os principais projetos de Artigas em São Paulo estão o estádio do Morumbi (1953), o edifício Louveira (1946), no Higienópolis, e o prédio da FAU-USP (1961), este considerado sua obra magna.
“A FAU é um espaço fluido, integrado, somático. A pessoa não sabe se está no primeiro andar, no segundo ou no terceiro”, dizia sobre o projeto para a USP.
O Louveira, com os dois blocos "soltos" do chão intercalados por um jardim integrado à praça Vila Boim, virou arte urbana e histórica. É programa cultural passar em suas calçadas, olhar para as janelas do tipo guilhotina, subir as rampas, caminhar pelo jardim, apreciar o vanguardismo, a ousadia.
Muito do arquiteto está na Ocupação Artigas, no Itaú Cultural (avenida Paulista, 149). As ocupações desse que é um dos melhores centros culturais da cidade incluem debates e visitas temáticas. No caso de Artigas, há visitas programadas a várias de suas obras, sempre aos sábados, de manhã. Uma oportunidade incrível.
O documentário "Vilanova Artigas: o arquiteto e a luz" está em cartaz no Espaço Itaú.
As obras estão todas por aí.
As fotos do Louveira, encontradas na internet, são de Cristiano Mascaro (preto e branco) e da revista Casa Vogue (colorida).
Em suas aulas, defendia com vigor a importância social da arquitetura. Queria que suas obras fossem compreendidas por todos, independente do repertório. Ao falar sobre o prédio da FAU-USP, divertia-se com a própria ousadia, mencionava a ausência de portas e o fato do prédio ser um lugar onde não faz frio ou calor.
Há Artigas em obras assinadas por vários outros arquitetos.
Revolucionário, corajoso, formador, referência, humanista.
Mesmo com tudo isso, foi aposentado compulsoriamente pela USP em 1969, por causa do AI-5, o ato institucional que endureceu ainda mais a ditadura militar. O motivo é o mesmo que justificou outras perseguições, torturas, mortes e exílios: era comunista.
Esse episódio é lembrado agora, em 2015, ano em que o arquiteto genial completaria 100 anos. O centenário é marcado por exposições, documentário, livro, visitas a obras, debates e bate papos.
Então, ressurge esse episódio inacreditável da história brasileira.
Em 1980, com a anistia, Artigas voltou à USP. A universidade, com toda a sua crueldade burocrática, permitiu que ocupasse apenas a cadeira de professor assistente. Logo ele, um dos pais da arquitetura moderna, o homem que usou toda a sua capacidade crítica e o humanismo para receber as influências externas, transformá-las e criar o novo, o ousado, o marcante.
Em um dos depoimentos colhidos para a homenagem ao centenário, um ex-aluno, José Armênio de Brito Cruz, conta que Artigas às vezes mostrava o seu holerite. O criador de obras emblemáticas em São Paulo e outras cidades ganhava o equivalente a R$ 500.
Outro aluno, Rui Ohtake, conta que o mestre terminava a aula e não ia embora. Gostava de conversar com os estudantes e esquecia os compromissos do escritório.
Quatro anos depois da anistia, para voltar a ser professor titular, Artigas foi obrigado pela USP a se submeter a um concurso público...
Conta Reginaldo Forti, genro do arquiteto, que ele levou a sério. Trancava-se em seu escritório para estudar, se preparar para as provas escrita e oral, enfim, para a banca examinadora.
Passou no concurso com nota 10, é óbvio, e foi reintegrado à universidade que ajudou criar. A prova na banca examinadora virou um ato político com a presença de muitos estudantes e jornalistas. Em entrevista, após a prova, Artigas deixou seu protesto. Disse que a grande universidade fez com ele uma molecagem medieval.
Sete meses depois, ele morreu.
Paulo Markun, amigo da família, considera importante lembrar nos dias atuais que a principal universidade brasileira, o centro de pensadores, foi capaz de se submeter à imbecilidade dos ditadores brasileiros. A palavra imbecilidade é por minha conta.
Não foi só isso. Antes, Artigas precisou passar um período de exílio no Uruguai. Foi encontrado por amigos na miséria, em um cortiço, Também arquiteto modernista, também perseguido, Paulo Mendes da Rocha participava nessa época de um esquema de "guerrilha" que permitia a Artigas encontrar a mulher e os filhos em um "aparelho" da resistência nos anos de chumbo.
Entre os principais projetos de Artigas em São Paulo estão o estádio do Morumbi (1953), o edifício Louveira (1946), no Higienópolis, e o prédio da FAU-USP (1961), este considerado sua obra magna.
“A FAU é um espaço fluido, integrado, somático. A pessoa não sabe se está no primeiro andar, no segundo ou no terceiro”, dizia sobre o projeto para a USP.
O Louveira, com os dois blocos "soltos" do chão intercalados por um jardim integrado à praça Vila Boim, virou arte urbana e histórica. É programa cultural passar em suas calçadas, olhar para as janelas do tipo guilhotina, subir as rampas, caminhar pelo jardim, apreciar o vanguardismo, a ousadia.
Muito do arquiteto está na Ocupação Artigas, no Itaú Cultural (avenida Paulista, 149). As ocupações desse que é um dos melhores centros culturais da cidade incluem debates e visitas temáticas. No caso de Artigas, há visitas programadas a várias de suas obras, sempre aos sábados, de manhã. Uma oportunidade incrível.
O documentário "Vilanova Artigas: o arquiteto e a luz" está em cartaz no Espaço Itaú.
As obras estão todas por aí.
As fotos do Louveira, encontradas na internet, são de Cristiano Mascaro (preto e branco) e da revista Casa Vogue (colorida).
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Um abraçaço
A caminho do trabalho, no Centro de São Paulo, observo um velho japonês, de óculos modernos. Ele caminha com dificuldade. Os passos são curtos, meio arrastados, de soquinho. Eu pensava nas contas a pagar. Olhei rapidamente. Também rapidamente, pensei no passado daquele senhor, agora caminhando sozinho. Sempre penso no passado dos velhos e velhas que agora caminham sozinhos.
Então ele me abordou.
- Onde vai assim?
Assim como?
De xale verde, cabelos molhados do banho, calça jeans um pouco justa, sapatilha preta, batom rosinha, preocupada com o mês que não fecha.
- Vou trabalhar.
- Onde?
- Logo ali em frente.
- Ah, bom trabalho. E me dá um abraço.
Eu dei.
E ele continuou seu caminho, sorridente.
Eu também.
Então ele me abordou.
- Onde vai assim?
Assim como?
De xale verde, cabelos molhados do banho, calça jeans um pouco justa, sapatilha preta, batom rosinha, preocupada com o mês que não fecha.
- Vou trabalhar.
- Onde?
- Logo ali em frente.
- Ah, bom trabalho. E me dá um abraço.
Eu dei.
E ele continuou seu caminho, sorridente.
Eu também.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Coração a batucar
E essa guitarra sensacional do Davi Moraes? E o som dos músicos todos, que coisa linda!! E a cantora divando no palco? É muito talento envolvido na causa.
Ouça com seus próprios ouvidos, veja com seus próprios olhos: Coração a batucar
Ouça com seus próprios ouvidos, veja com seus próprios olhos: Coração a batucar
terça-feira, 28 de abril de 2015
O dia em que Fernandona aplaudiu Abu
Há dois, três anos, assisti Fernanda Montenegro na peça "Viver sem tempos mortos", obra inspirada na correspondência de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Todos, no teatro, estavam ávidos pelo talento impressionante da atriz. Importava pouco o texto denso dos existencialistas. E Fernandona, no final, contou que sempre representa para um coletivo. Usa toda a sua energia e respeito para conquistar o público. Naquele dia, no entanto, foi diferente. Ela atuou para uma só pessoa da plateia: Antônio Abujamra, o Abu, homem dos palcos que inspirou a grande dama. Fernanda, elegante e emocionada, abriu mão dos "bravos" tão constantes em sua carreira e, naquela noite, aplaudiu Abu.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
É feio. E é bonito
Cruzo diariamente algumas das ruas sob o Elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, na região central de São Paulo. Sempre penso: como deixaram o Maluf fazer isso? Por que as pessoas não foram para a rua protestar, não deitaram no asfalto, não impediram o trânsito, não mandaram ele construir o monstrengo na porta da casa dele?
Dia desses, um amigo respondeu o que eu já sabia.
O Minhocão foi construído na década de 1970, em plena ditadura militar. Maluf, prefeito nomeado pelos militares, fazia o que bem entendesse em São Paulo. E entendeu que aquele monte de concreto sinuoso era o melhor para agilizar o trânsito na região e, claro, para alavancar a carreira política dele.
Os moradores dos bairros afetados não foram consultados, isso talvez nem existisse na época. Para dar um toque a mais no absurdo, o prefeito biônico deu o nome de um ditador dos "anos de chumbo" para a obra sem poesia. Costa e Silva, eis o nome da "cicatriz" urbana.
Imagino o que os moradores dos diversos edifícios localizados rentes ao pontilhão sentiram ao abrir a janela e ver a paisagem drasticamente transformada. Segundo os ativistas do movimento Parque Minhocão, os veículos chegam a passar a apenas cinco metros de alguns dos apartamentos localizados ao longo do percurso.
Numa caminhada pelo elevado, que atualmente fica fechado para o tráfego de veículos durante todo o dia nos domingos e feriados e também durante a noite, vi uma cena inacreditável. O Minhocão praticamente encosta numa das sacadas. Isso significa que, além do barulho e da poluição no dia a dia, basta um pulo para qualquer pessoa entrar no apartamento, nos dias em que o elevado está aberto aos pedestres.
Os tempos são outros e hoje em dia o destino do Minhocão é alvo de discussões, debates, projetos e ideias que circulam sem restrições. O mais recente Plano Diretor da cidade prevê que seja desativado progressivamente até ser demolido ou transformado em parque.
Fracasso urbanístico, obra polêmica, desastre, culpado pela degradação dos bairros no entorno, símbolo da falta de planejamento, aberração... O fato é que o elevado com nome de ditador foi incorporado à paisagem urbana, virou cenário para filmes, novelas e fotos. É sim a cara de São Paulo.Uma das caras. Mais recentemente, por causa dos horários em que fecha para o trânsito, foi assumido por milhares de moradores como espaço de lazer.
Num domingo à tarde qualquer, vira quadra de futebol, pista de corrida e caminhada, ciclovia, terraço para churrasco e piquenique, palco de teatro, encontro de amigos fãs da maconha, entre outras utilidades. É bonito ver tudo isso.
Ali acontece, de forma espontânea, o sonho dos movimentos que defendem a ocupação das ruas como atitude para exercer o direito à cidade: a população se apropriou do espaço destinado originalmente apenas aos veículos.
E, bem... Do alto,
o Minhocão é bonito, inclusive no que diz respeito à decadência dos prédios no seu entorno. A feiura tem sua belezura, inspirou-se outro amigo. Vários símbolos de São Paulo são avistados numa caminhada pelo elevado: o Copan, a igreja de Santa Cecília, o Castelinho da rua Apa, a praça Roosevelt, os inferninhos, grupos de teatro que transformam as janelas em pequenos palcos, enfim, a vida que segue ali, bem perto dos nossos olhos.
Para saber mais sobre o movimento que defende o Parque Minhocão, veja aqui.
Dia desses, um amigo respondeu o que eu já sabia.
O Minhocão foi construído na década de 1970, em plena ditadura militar. Maluf, prefeito nomeado pelos militares, fazia o que bem entendesse em São Paulo. E entendeu que aquele monte de concreto sinuoso era o melhor para agilizar o trânsito na região e, claro, para alavancar a carreira política dele.
Os moradores dos bairros afetados não foram consultados, isso talvez nem existisse na época. Para dar um toque a mais no absurdo, o prefeito biônico deu o nome de um ditador dos "anos de chumbo" para a obra sem poesia. Costa e Silva, eis o nome da "cicatriz" urbana.
Imagino o que os moradores dos diversos edifícios localizados rentes ao pontilhão sentiram ao abrir a janela e ver a paisagem drasticamente transformada. Segundo os ativistas do movimento Parque Minhocão, os veículos chegam a passar a apenas cinco metros de alguns dos apartamentos localizados ao longo do percurso.
Numa caminhada pelo elevado, que atualmente fica fechado para o tráfego de veículos durante todo o dia nos domingos e feriados e também durante a noite, vi uma cena inacreditável. O Minhocão praticamente encosta numa das sacadas. Isso significa que, além do barulho e da poluição no dia a dia, basta um pulo para qualquer pessoa entrar no apartamento, nos dias em que o elevado está aberto aos pedestres.
Os tempos são outros e hoje em dia o destino do Minhocão é alvo de discussões, debates, projetos e ideias que circulam sem restrições. O mais recente Plano Diretor da cidade prevê que seja desativado progressivamente até ser demolido ou transformado em parque.
Fracasso urbanístico, obra polêmica, desastre, culpado pela degradação dos bairros no entorno, símbolo da falta de planejamento, aberração... O fato é que o elevado com nome de ditador foi incorporado à paisagem urbana, virou cenário para filmes, novelas e fotos. É sim a cara de São Paulo.Uma das caras. Mais recentemente, por causa dos horários em que fecha para o trânsito, foi assumido por milhares de moradores como espaço de lazer.
Num domingo à tarde qualquer, vira quadra de futebol, pista de corrida e caminhada, ciclovia, terraço para churrasco e piquenique, palco de teatro, encontro de amigos fãs da maconha, entre outras utilidades. É bonito ver tudo isso.
Ali acontece, de forma espontânea, o sonho dos movimentos que defendem a ocupação das ruas como atitude para exercer o direito à cidade: a população se apropriou do espaço destinado originalmente apenas aos veículos.
E, bem... Do alto,
o Minhocão é bonito, inclusive no que diz respeito à decadência dos prédios no seu entorno. A feiura tem sua belezura, inspirou-se outro amigo. Vários símbolos de São Paulo são avistados numa caminhada pelo elevado: o Copan, a igreja de Santa Cecília, o Castelinho da rua Apa, a praça Roosevelt, os inferninhos, grupos de teatro que transformam as janelas em pequenos palcos, enfim, a vida que segue ali, bem perto dos nossos olhos.
Para saber mais sobre o movimento que defende o Parque Minhocão, veja aqui.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Foi um rio...
Tenho muita inveja de quem canta sambas antigos de cor. A letra toda, sem errar, com ritmo, nas rodas e nos espetáculos. Aconteceu ontem, no show do Paulinho da Viola, no Sesc Pinheiros. Um casal maduro saboreou a apresentação com o gosto especial de conhecer todas as canções, sem pular nenhuma. Sentada uma cadeira à frente, ouvi tudo. Eles cantaram suave, como Paulinho merece. Então, o sambista contou a história de seu maior clássico, "Foi um rio que passou em minha vida". Ao ser lançada em São Paulo, a homenagem à Portela foi vaiada. O casal não se conformou:
- Mas como uma música dessas foi vaiada?, questionou o homem.
- É São Paulo. Nós somos assim, respondeu, conformada, a mulher.
Pode ser. São Paulo é enfezadinha mesmo. Mas ontem aplaudiu de pé a canção do príncipe carioca.
- Mas como uma música dessas foi vaiada?, questionou o homem.
- É São Paulo. Nós somos assim, respondeu, conformada, a mulher.
Pode ser. São Paulo é enfezadinha mesmo. Mas ontem aplaudiu de pé a canção do príncipe carioca.
terça-feira, 7 de abril de 2015
Caixa Cubo - a música brasileira resiste
“Arrasta essa gente aí, Pimentinha”, pediu Vinicius de Moraes. O bilhete, claro, era para Elis Regina, que entraria no palco do I Festival Nacional da Música Popular Brasileira para defender “Arrastão”, um clássico dos festivais, da música brasileira e da parceria entre Vinicius (letra) e Edu Lobo (música).
“Arrastão” venceu o festival realizado em 1965 e consagrou Elis. Foi um marco. A cantora, ainda com o visual anos 50 de Porto Alegre, ignorou as regras do canto minimalista da bossa nova e soltou o vozeirão. Soltou também os braços no estilo hélice giratória. Inesquecível.
“Olha o arrastão entrando no mar sem fim
He, meu irmão, me traz Iemanjá pra mim”
No show “Redescobrir”, Maria Rita fez as pazes definitivamente com a memória da mãe ao girar os braços delicadamente na segunda parte da canção, uma das interpretadas na homenagem a Elis.
Na plateia dos espetáculos da turnê, fãs antecipavam o gesto que simbolicamente liga as duas grandes cantoras, mãe e filha que pouco se conheceram.
Reencontrei “Arrastão” na segunda-feira pós-Páscoa. Depois do feriadão, o dia tinha tudo para ser tedioso do início ao fim. Não foi, pelo menos em sua parte final.
A música de Edu Lobo, em um arranjo jazzístico, foi uma das tocadas no show de lançamento de “Misturada”, álbum do grupo Caixa Cubo Trio, formado pelos músicos Henrique Gomide (piano), João Fideles (bateria) e Noa Stroeter (baixo).
Os três viveram os últimos anos entre o Brasil e a Holanda, onde cursaram mestrado no Real Conservatório de Haia. Intercalaram estudos, ensaios, gravações e apresentações na Europa. Têm cara e jeito de meninos, mas já estão escolados.
O projeto Caixa Cubo é múltiplo e permite várias formações e propostas estéticas. Do samba ao jazz, passando pelo baião. Ou vice-versa.
Preciso dizer: fiquei chocada, no bom sentido, com a combinação juventude-dos-músicos mais grande-talento-dos-mesmos. Como pode, com aquelas caras de garotos, já terem chegado ao alto nível que quem estava no Sesc Consolação viu, ouviu e aplaudiu?
De acordo com o crítico Carlos Calado, o trio é a prova de que a falta de interesse da juventude pela música instrumental não passa de uma falácia.
Eles chegaram ao Sesc Consolação após participar de festivais de jazz na Europa e se apresentaram para uma plateia que reunia vários músicos experientes.
Não sou capaz de ler pensamentos, mas aposto em algo pairando por todas as mentes presentes: a genial música brasileira sobrevive.
“Misturada” resume bem o que os músicos do trio Caixa Cubo gostam de fazer: experimentar formas diferentes de tocar, não ficar presos a estilos, ir da música clássica à eletrônica, propor parcerias, renovar e, ao mesmo tempo, ter orgulho das influências do passado, citadas o tempo todo.
O álbum foi produzido por Rodolfo Stroeter, instrumentista do grupo Pau Brasil, entre outras dezenas de atribuições musicais. Ele é pai de Noa e, ao ouvir os garotos tocarem um repertório pronto nos ensaios e estudos, começou a bem sucedida produção.
Assim como a apresentação do trio Caixa Cubo, os espetáculos instrumentais de toda segunda-feira à noite são de graça no Sesc Consolação (rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque).
No final do show de lançamento de “Misturada”, os músicos responderam algumas perguntas do público e ouviram uma solicitação direcionada aos produtores do Sesc: “Levem esses músicos para todas as unidades”.
Sim, levem. Todo mundo merece ouvi-los.
A foto é do site do trio.
“Arrastão” venceu o festival realizado em 1965 e consagrou Elis. Foi um marco. A cantora, ainda com o visual anos 50 de Porto Alegre, ignorou as regras do canto minimalista da bossa nova e soltou o vozeirão. Soltou também os braços no estilo hélice giratória. Inesquecível.
“Olha o arrastão entrando no mar sem fim
He, meu irmão, me traz Iemanjá pra mim”
No show “Redescobrir”, Maria Rita fez as pazes definitivamente com a memória da mãe ao girar os braços delicadamente na segunda parte da canção, uma das interpretadas na homenagem a Elis.
Na plateia dos espetáculos da turnê, fãs antecipavam o gesto que simbolicamente liga as duas grandes cantoras, mãe e filha que pouco se conheceram.
Reencontrei “Arrastão” na segunda-feira pós-Páscoa. Depois do feriadão, o dia tinha tudo para ser tedioso do início ao fim. Não foi, pelo menos em sua parte final.
A música de Edu Lobo, em um arranjo jazzístico, foi uma das tocadas no show de lançamento de “Misturada”, álbum do grupo Caixa Cubo Trio, formado pelos músicos Henrique Gomide (piano), João Fideles (bateria) e Noa Stroeter (baixo).
Os três viveram os últimos anos entre o Brasil e a Holanda, onde cursaram mestrado no Real Conservatório de Haia. Intercalaram estudos, ensaios, gravações e apresentações na Europa. Têm cara e jeito de meninos, mas já estão escolados.
O projeto Caixa Cubo é múltiplo e permite várias formações e propostas estéticas. Do samba ao jazz, passando pelo baião. Ou vice-versa.
Preciso dizer: fiquei chocada, no bom sentido, com a combinação juventude-dos-músicos mais grande-talento-dos-mesmos. Como pode, com aquelas caras de garotos, já terem chegado ao alto nível que quem estava no Sesc Consolação viu, ouviu e aplaudiu?
De acordo com o crítico Carlos Calado, o trio é a prova de que a falta de interesse da juventude pela música instrumental não passa de uma falácia.
Eles chegaram ao Sesc Consolação após participar de festivais de jazz na Europa e se apresentaram para uma plateia que reunia vários músicos experientes.
Não sou capaz de ler pensamentos, mas aposto em algo pairando por todas as mentes presentes: a genial música brasileira sobrevive.
“Misturada” resume bem o que os músicos do trio Caixa Cubo gostam de fazer: experimentar formas diferentes de tocar, não ficar presos a estilos, ir da música clássica à eletrônica, propor parcerias, renovar e, ao mesmo tempo, ter orgulho das influências do passado, citadas o tempo todo.
O álbum foi produzido por Rodolfo Stroeter, instrumentista do grupo Pau Brasil, entre outras dezenas de atribuições musicais. Ele é pai de Noa e, ao ouvir os garotos tocarem um repertório pronto nos ensaios e estudos, começou a bem sucedida produção.
Assim como a apresentação do trio Caixa Cubo, os espetáculos instrumentais de toda segunda-feira à noite são de graça no Sesc Consolação (rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque).
No final do show de lançamento de “Misturada”, os músicos responderam algumas perguntas do público e ouviram uma solicitação direcionada aos produtores do Sesc: “Levem esses músicos para todas as unidades”.
Sim, levem. Todo mundo merece ouvi-los.
A foto é do site do trio.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Tomie
O sol brasileiro que seduziu Tomie Ohtake refletiu cedinho no prédio moderno construído pelos filhos arquitetos da grande artista nipo-brasileira. Eu não sei se gosto daquele espelhado cor-de-rosa. Mas hoje gostei. Porque a luz, batendo no prédio, deixou a calçada rosada. Quase pink. Lá dentro, Tomie, de preto, óculos grossos, discreta também na despedida. Do lado de fora, o moço das coroas de flores não aderiu à comoção elegante.
- Vai, Corinthians.
Gritou, para um conhecido, entre uma entrega e outra.
Velho de guerra, um jornalista frilando falou sobre os velórios memoráveis de sua trajetória: Tancredo e Senna. O tom ácido, tão frequente nas redações, não escondeu de todo o orgulho. Ele fez parte da história.
Um dos filhos entrou numa obra de arte interativa para falar às tvs. Um jovem mostrou as tatuagens. Ergueu a barra da calça para mostrar. José Possi Neto seguiu a fila dos pêsames. Uma jovem oriental saiu apressada. Olhos vermelhos.
Li numa homenagem em rede social uma ótima definição para a artista: era a síntese de São Paulo.
Era sim, era muito isso.
E vai continuar.
Ontem à noite, a tradicional Caminhada Noturna das quintas-feiras foi mais sensacional do que as outras todas. Os caminhantes marcaram encontro com a banda do Sindicato dos Músicos, que abre o Carnaval na cidade.
Velhos músicos tocaram marchinhas também antigas e todo mundo cantou e dançou no centrão belo, desesperado, sujo e fascinante. Bem na nossa frente, um painel colorido da artista, na Ladeira da Memória.
Ela gostaria da cena, acho eu.
E do rosa na calçada. Também do dia quente.
Hoje o sol esquentou São Paulo. Sol de Tomie.
- Vai, Corinthians.
Gritou, para um conhecido, entre uma entrega e outra.
Velho de guerra, um jornalista frilando falou sobre os velórios memoráveis de sua trajetória: Tancredo e Senna. O tom ácido, tão frequente nas redações, não escondeu de todo o orgulho. Ele fez parte da história.
Um dos filhos entrou numa obra de arte interativa para falar às tvs. Um jovem mostrou as tatuagens. Ergueu a barra da calça para mostrar. José Possi Neto seguiu a fila dos pêsames. Uma jovem oriental saiu apressada. Olhos vermelhos.
Li numa homenagem em rede social uma ótima definição para a artista: era a síntese de São Paulo.
Era sim, era muito isso.
E vai continuar.
Ontem à noite, a tradicional Caminhada Noturna das quintas-feiras foi mais sensacional do que as outras todas. Os caminhantes marcaram encontro com a banda do Sindicato dos Músicos, que abre o Carnaval na cidade.
Velhos músicos tocaram marchinhas também antigas e todo mundo cantou e dançou no centrão belo, desesperado, sujo e fascinante. Bem na nossa frente, um painel colorido da artista, na Ladeira da Memória.
Ela gostaria da cena, acho eu.
E do rosa na calçada. Também do dia quente.
Hoje o sol esquentou São Paulo. Sol de Tomie.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Ron Mueck - a solidão encontra a multidão
A criação solitária está entre as curiosidades a respeito do
artista australiano Ron Mueck, autor das esculturas hiper-realistas expostas na
Pinacoteca de São Paulo. Ele gosta de criar sozinho, sem a necessidade de
interagir com outras pessoas, pelo menos até o momento em que precisa de
auxiliares. Prefere as fotos aos modelos vivos. Gosta do som ambiente e de
ouvir rádio – nada de conversas.
Não por acaso, suas esculturas humanas chamam a atenção por
causa das expressões (e outros detalhes) que consegue reproduzir. E as expressões
mostram solidão e tensão.
Como acontece onde as obras passam, em São Paulo a
exposição atrai milhares de pessoas desde o início, em novembro. A fila vira o
quarteirão – mas anda rapidamente, o que a torna fácil de enfrentar.
Eu e minha filha não chegamos a ficar entusiasmadas com as
esculturas. Parecem grandes bonecos produzidos por um artista perfeccionista,
capaz de transformar diversos materiais em pele, músculos, pelos, cabelos. O
que mais impressiona são mesmo as expressões humanas.
Uma amiga alertou para o fato de que talvez seja interessante apreciar o talento de Mueck num ambiente mais tranquilo do que o
das salas lotadas da Pinacoteca.
É verdade: no meio de uma multidão produzindo selfies sem
parar, é difícil olhar com calma para as esculturas e perceber as nuances todas, a complexidade da arte.
O australiano vem de uma família fabricante de brinquedos.
O pai trabalhava com madeira. A mãe produzia bonecas de pano. Ele, de certa forma,
continua no ramo. Transformou os grandes e pequenos brinquedos em arte.
É irônico que um artista criador de figuras
aparentemente solitárias atraia multidões para apreciar seu trabalho. É irônico e é bom. O contraponto é pra lá de interessante.
Com os olhos e os ouvidos abertos e dispostos, a enorme
fila em torno da Pinacoteca pode ser encarada como a primeira etapa da concorrida
exposição. Ali, vivos e lutando para sobreviver, estão personagens que Mueck transformaria em esculturas de gestos tensos e olhares perdidos nos momentos de introspecção.
Eu escolheria a mulher de meia idade, culta, vestida de
forma simples, explicando para a filha adolescente a origem da arquitetura do
prédio.
- Os gregos usavam mármore no prédio todo. Os romanos só do
lado de fora. Por dentro eram tijolos parecidos com os da Pinacoteca.
O museu de arte mais antigo de São Paulo está instalado no
antigo edifício do Liceu de Artes e Ofícios, projetado pelo escritório do
arquiteto Ramos de Azevedo. Tem acervo com cerca de cem mil obras e espaços
para restauração, catalogação e educação.
Grandes painéis instalados no subsolo contam toda a
trajetória do museu. Um charmoso café tem como principal atração a vista para o
Jardim da Luz, onde esculturas estão misturadas à vegetação e velhas prostitutas ganham a vida.
É um passeio imperdível na cidade, com ou sem Ron Mueck.
Também escolheria os irmãos vendedores de sorvete. Aliás,
sorvete não. Paletas mexicanas. Fabricadas em casa, pela mãe dos garotos. Eles
esgotaram o estoque e mostraram que, mesmo no improviso, são profissionais. Estavam
uniformizados e prontos a orientar os consumidores sobre a melhor forma de
degustar uma paleta mexicana caseira.
Os humanos são atração dentro e fora da Pinacoteca.
Ron Mueck
De terça
a domingo, das 10h às 20h
Quinta,
das 10h às 22h
Praça da Luz – acesso fácil pelo metrô da Luz
sábado, 3 de janeiro de 2015
'Tim Maia', no teatro, foi o melhor musical
Sou praticamente uma fanática por Elis Regina. Considero a voz da cantora gaúcha uma das melhores de todos os tempos, no mundo inteiro. Junto a isso, ela era capaz de interpretações inacreditáveis. Tinha talento também para o teatro, dizem alguns especialistas. Acho que sim. Mas não só. Era uma artista que sentia de fato as letras. Então chorava, era irônica, debochada, gargalhava, tudo isso sem perder a qualidade. Além de tudo, teve enorme capacidade de escolher bem os compositores que interpretaria. E sorte por ter nascido na era musical em que nasceu.
Mesmo assim, "Elis, a musical" está apenas no terceiro lugar entre os musicais que assisti nos últimos tempos. Para o segundo lugar, escolhi "Cazuza - pro dia nascer feliz". E em primeiro, "Tim Maia - Vale Tudo". Por que? Questionei, sozinha, o meu próprio ranking. Cheguei a algumas conclusões:
1 - Os musicais sobre as vidas de Tim e Cazuza não escondem nada. As drogas e os efeitos delas são retratadas com fidelidade. A dificuldade de lidar com as personalidades complexas e difíceis também. Os rompantes, a irresponsabilidade, as fases decadentes, idem. São musicais mais completos, mais emocionantes. Em "Elis", nem tudo é retratado. A morte, do jeito que foi, por exemplo. E Elis, o mito, tem muito a ver com a morte do jeito que foi. Aos 36 anos, numa overdose acidental, no auge da carreira, com filhos pequenos e começando uma nova fase profissional e pessoal. Eu ainda não tinha idade ou inteligência suficiente para gostar de Elis quando ela partiu. Mas não esqueço a comoção geral daquele dia. Pular isso, portanto, é optar por deixar a história capenga.
2 - O talento fora do comum da cantora deixou um legado único. Ninguém se iguala a Elis. As duas intérpretes (Laila Garin e Lilian Menezes se revezam no musical) são brilhantes, mas cantar como Elis... É impossível. Por mais consciência que os fãs tenham disso, fica um gostinho de frustração. Não é muito bacana admitir. Mas fica sim.
3 - Cazuza é um artista da minha adolescência. Eu amava Cazuza. Queria ter visto as baixarias dele no Baixo Leblon. Ainda não aceitei a morte precoce. Com o tempo, percebi que o cantor e compositor deixou uma obra pequena e algumas canções datadas. Em compensação, outras são eternas. Como "Codinome Beija-Flor", uma das minhas preferidas. Ver tudo de novo, numa produção teatral impecável, foi demais para o meu pobre coração.
4 - Não assisti o Tim Maia feito pelo neto de Silvio Santos. Quando fui ver o musical, o intérprete da vez era Danilo de Moura. Sensacional. Pensei: será mesmo que Tiago Abravanel supera esse outro ator tão talentoso? Como não vi os dois em cena, fica a dúvida. E uma constatação: na aparência, na musicalidade e até no vozeirão, temos vários Tins. Os dois do filme, os dois do teatro, uns que fazem shows e ganham a vida sendo Tim Maia. Claro, o compositor, o ritmista, o louco, foi apenas um.
5 - "Tim Maia-Vale Tudo" era quase um show. A plateia terminava dançando e cantando. Danilo Moura achou aquilo um tesão. E quem não acharia?
6 - Assisti o musical sobre Tim ao lado de um tijucano. Ele vibrava. "Falaram sobre a minha rua". "Conheço esse lugar". "Estudei nessa escola". Um bairro em que viveram Tim, Roberto e Erasmo, entre outros, só pode ser o máximo. Desde então - e também por outras razões - sou louca pela Tijuca que ainda não conheço.
Mesmo assim, "Elis, a musical" está apenas no terceiro lugar entre os musicais que assisti nos últimos tempos. Para o segundo lugar, escolhi "Cazuza - pro dia nascer feliz". E em primeiro, "Tim Maia - Vale Tudo". Por que? Questionei, sozinha, o meu próprio ranking. Cheguei a algumas conclusões:
1 - Os musicais sobre as vidas de Tim e Cazuza não escondem nada. As drogas e os efeitos delas são retratadas com fidelidade. A dificuldade de lidar com as personalidades complexas e difíceis também. Os rompantes, a irresponsabilidade, as fases decadentes, idem. São musicais mais completos, mais emocionantes. Em "Elis", nem tudo é retratado. A morte, do jeito que foi, por exemplo. E Elis, o mito, tem muito a ver com a morte do jeito que foi. Aos 36 anos, numa overdose acidental, no auge da carreira, com filhos pequenos e começando uma nova fase profissional e pessoal. Eu ainda não tinha idade ou inteligência suficiente para gostar de Elis quando ela partiu. Mas não esqueço a comoção geral daquele dia. Pular isso, portanto, é optar por deixar a história capenga.
2 - O talento fora do comum da cantora deixou um legado único. Ninguém se iguala a Elis. As duas intérpretes (Laila Garin e Lilian Menezes se revezam no musical) são brilhantes, mas cantar como Elis... É impossível. Por mais consciência que os fãs tenham disso, fica um gostinho de frustração. Não é muito bacana admitir. Mas fica sim.
3 - Cazuza é um artista da minha adolescência. Eu amava Cazuza. Queria ter visto as baixarias dele no Baixo Leblon. Ainda não aceitei a morte precoce. Com o tempo, percebi que o cantor e compositor deixou uma obra pequena e algumas canções datadas. Em compensação, outras são eternas. Como "Codinome Beija-Flor", uma das minhas preferidas. Ver tudo de novo, numa produção teatral impecável, foi demais para o meu pobre coração.
4 - Não assisti o Tim Maia feito pelo neto de Silvio Santos. Quando fui ver o musical, o intérprete da vez era Danilo de Moura. Sensacional. Pensei: será mesmo que Tiago Abravanel supera esse outro ator tão talentoso? Como não vi os dois em cena, fica a dúvida. E uma constatação: na aparência, na musicalidade e até no vozeirão, temos vários Tins. Os dois do filme, os dois do teatro, uns que fazem shows e ganham a vida sendo Tim Maia. Claro, o compositor, o ritmista, o louco, foi apenas um.
5 - "Tim Maia-Vale Tudo" era quase um show. A plateia terminava dançando e cantando. Danilo Moura achou aquilo um tesão. E quem não acharia?
6 - Assisti o musical sobre Tim ao lado de um tijucano. Ele vibrava. "Falaram sobre a minha rua". "Conheço esse lugar". "Estudei nessa escola". Um bairro em que viveram Tim, Roberto e Erasmo, entre outros, só pode ser o máximo. Desde então - e também por outras razões - sou louca pela Tijuca que ainda não conheço.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Frei Caneca
Três coisinhas nada à toa sobre a Frei Caneca, uma das minhas ruas preferidas em São Paulo:
Número um
Foi lá que Raul Seixas, a lenda, passou os últimos meses de sua vida intensa e curta. De bar em bar, entre um show e outro. Os mais velhos lembram do roqueiro quieto, nos balcões da vida.
Como assim, Raul andou pelas mesmas calçadas em que a gente passa apressada, carregando sacolas?
Número dois
Fica na Frei Caneca o alternativo Teatro e Bar Cemitério de Automóveis. Mário Bortolotto, o dramaturgo, o músico, outra lenda, é o dono do pedaço. Ali faz música, bebe e escreve.
Já passei e vi o Mário sentado na varanda, celular na mão, olhos na telinha.
Será que acompanhava a repercussão de um dos seus textos sinceros?
Acho que sim.
Número três
Logo após o Cemitério de Automóveis, tem uma escola de balé. A música clássica escapa pela janela e chama a atenção. Aí a gente olha e vê as bailarinas, clássicas, belas, incomuns na rua escura.
E que rua.
Número um
Foi lá que Raul Seixas, a lenda, passou os últimos meses de sua vida intensa e curta. De bar em bar, entre um show e outro. Os mais velhos lembram do roqueiro quieto, nos balcões da vida.
Como assim, Raul andou pelas mesmas calçadas em que a gente passa apressada, carregando sacolas?
Número dois
Fica na Frei Caneca o alternativo Teatro e Bar Cemitério de Automóveis. Mário Bortolotto, o dramaturgo, o músico, outra lenda, é o dono do pedaço. Ali faz música, bebe e escreve.
Já passei e vi o Mário sentado na varanda, celular na mão, olhos na telinha.
Será que acompanhava a repercussão de um dos seus textos sinceros?
Acho que sim.
Número três
Logo após o Cemitério de Automóveis, tem uma escola de balé. A música clássica escapa pela janela e chama a atenção. Aí a gente olha e vê as bailarinas, clássicas, belas, incomuns na rua escura.
E que rua.
domingo, 12 de outubro de 2014
A infância, sob tensão, num prédio ocupado
Fotos: Su Stathopoulos
Sentada na escadaria do antigo Columbia Palace Hotel, na avenida São João, centro de São Paulo, a menina Maria Eduarda, a Duda, 9 anos, tenta encontrar alguma novidade nos três livros que possui, um deles didático e os outros dois de histórias infantis.
“Eu gosto muito de ler, mas só tenho esses três livros e estou cansada deles”, revela, enquanto acompanha as tentativas do irmão mais novo, Pedro, 7, de jogar futebol num dos corredores do prédio.
Os dois irmãos são moradores de uma das 40 ocupações feitas por sem teto no centro de São Paulo. Vivem a rotina típica da infância: vão para a escola, brincam, frequentam cursos extras, levam bronca e, às vezes, brigam com amiguinhos.
No entanto, há um clima tenso no dia a dia dos pequenos. Os 200 moradores, alojados no prédio de seis andares desde o dia 3 de outubro de 2010, podem ser expulsos a qualquer momento por causa do processo de reintegração de posse que corre na Justiça de São Paulo. Os adultos falam sobre esse temor o tempo todo. As crianças percebem o nervosismo. O medo fica suspenso no ar.
“Esses dias faltei na escola. Mas não gosto de fazer isso. Queria ter ido”, conta Duda.
O dia da falta é simbólico para os militantes dos movimentos sem teto de São Paulo – e para a própria cidade. Duda não foi para a escola porque a avenida em que mora virou palco de uma guerra entre policiais militares e ocupantes do prédio vizinho, construído para ser sede do hotel Aquarius e então ocupado há seis meses por famílias parecidas com as da menina.
A reintegração de posse do dia 16 de setembro ocorreu em meio a desespero, bombas de efeito moral disparadas pela polícia, gritos, móveis e outros objetos jogados pelos moradores e um conflito que se espalhou pelas ruas da região central.
Bem em frente, no antigo Hotel Columbia, as crianças viram e ouviram tudo. Sentiram medo da violência e também de perder a moradia. Viveram uma tarde invadida pelo cheiro do gás de efeito moral e por sustos causados pelo barulho das bombas.
“Tenho medo de não ter onde viver com minha filha. Medo de precisar morar num lugar em que não encontre serviço para mim e escola para ela”, explica Luzilene dos Santos Silva, mãe de Raíssa, 6, ao justificar sua decisão de viver na região central de São Paulo, num prédio ocupado.
Segundo a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), mais da metade da população mundial mora hoje em áreas urbanas. Isso inclui um bilhão de crianças. Muitas ainda não têm acesso a escolas, hospitais e áreas de lazer, uma realidade ainda comum nas periferias das grandes cidades.
De acordo com dados do FLM (Frente de Luta por Moradia ), fatores como os baixos salários, desemprego e trabalho informal, especulação imobiliária e finanças públicas “drenadas para o setor parasitário (agiotas e rentistas)” excluem os trabalhadores sem teto das regiões urbanizadas e os empurram para a periferia.
No centro de São Paulo, a vida das mães, pais e de seus filhos é um pouco mais fácil do que nos bairros periféricos. A região oferece uma ampla rede de serviços: escolas, hospitais, centros de lazer, museus, praças.
O filho mais velho da agente comunitária de saúde Vanessa Cristina de Oliveira do Prado, por exemplo, vai todo dia a pé e sozinho para a escola. O adolescente tem 14 anos e, nos quatro anos em que vive na ocupação da São João, já conseguiu frequentar cursos de bombeiro mirim, circo e computação.
O mais novo, de oito anos, costuma passar horas na biblioteca no próprio prédio e também já participou de saraus literários promovidos pelos sem teto. São comuns também os passeios culturais em grupo.
“Coisas que na periferia são mais difíceis. Se eu sair daqui, não tenho para onde ir. Com o que ganho, pagaria só o aluguel. Aqui, conquistei muita coisa para os meus filhos”, diz a mãe.
E também para ela. Vanessa concluiu o ensino médio e agora planeja ir para a faculdade. Quer cursar farmácia. Ela e os filhos dividem dois cômodos no antigo hotel com outra família, formada por avó e neto. Na hora de dormir, é preciso colocar colchões no chão do quarto. O outro cômodo funciona como cozinha.
Segundo o advogado Benedito Barbosa, o Dito, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, a insegurança provocada pelo medo das reintegrações de posse é o principal problema das meninas e meninos que vivem nas ocupações urbanas.
“No Brasil há a prevalência do direito à propriedade e não do direito à moradia”, critica. “O país nunca teve uma reforma urbana. A lógica da expulsão dos pobres é antiga”.
Dito deixa claros os objetivos dos movimentos que ocupam prédios abandonados no centro de São Paulo: forçar o poder público a investir em projetos de moradias populares.
No dia 24 de agosto, a Prefeitura de São Paulo assinou convênio junto ao governo do estado para o lançamento de licitação de Parceria Público-Privada para habitações no centro expandido. Serão implantadas 14.124 unidades habitacionais. O projeto inclui também a instalação de equipamentos públicos, infraestrutura e áreas de comércio e serviços, com investimento total de R$ 3,5 bilhões.
Sonhos
Ao contrário do que podem pensar os que nunca entraram num prédio ocupado por sem teto, a organização e a limpeza são regras rígidas no prédio do antigo Columbia. Há controle também sobre o uso de álcool e atenção aos conflitos familiares.
O hotel estava abandonado há quase duas décadas quando virou moradia popular. Homens, mulheres e crianças precisaram tirar muito lixo dos quartos e corredores. Também providenciaram uma reforma para poder usar os banheiros.
Num jardim de inverno do passado, o esforço coletivo transformou em área de lazer um espaço inundado por água suja e apelidado de piscina. A anacrônica máquina de lavar do hotel, quase uma relíquia, hoje é usada como churrasqueira.
Os meninos e meninas do prédio têm a sorte de ter como vizinha a cenógrafa Nazaré Brasil, 48, uma ativista social preocupada em levar cultura para as crianças da ocupação.
“Quero despertar nas crianças o que elas têm de melhor”, explica.
Entre as atividades lideradas por Nazaré estão sessões num cineclube dentro do prédio, teatro, leitura, passeios, aulas e exposição de desenhos e pinturas.
O prédio todo é decorado com fotos artísticas e quadros produzidos pelos próprios moradores. Num dos passeios, as crianças fotografaram o centro e puderam expressar o pensam sobre a região onde moram. Na biblioteca, os livros infantis dividem espaço com as obras adultas.
“As crianças são discriminadas nas escolas e em outros locais que frequentam. A leitura é uma forma de fugir dessa realidade triste”, afirma Adalberto Rodrigues Soares, 42, um dos coordenadores da ocupação na avenida São João.
Endurecido pelas dificuldades da vida, Adalberto não resiste e chora ao falar sobre a tentativa de abrir o horizonte dos pequenos sem teto.
“É muito triste não ter sonhos”, diz.
Alheio à tensão que percorre todos os espaços do prédio, Mateus, 8, exerce como ninguém o seu direito ao sonho. Anda de um lado para o outro com sua barraquinha infantil, ótima para as brincadeiras de faz de conta.
“Dá até para fingir que é uma casa”, alegra-se.
Nas ruas, uma realidade cruel
Diego é o nome de “guerra” do adolescente de 16 anos, um dos andarilhos de São Paulo. Ele vive nos arredores da praça Dom Gaspar há dez anos. Não sabe – ou não revela – onde estão os pais.
Aprendeu a pedir comida, água, bebida, dinheiro, roupa ou qualquer outra coisa para as pessoas que encontra no caminho.
A reportagem acompanhou uma tarde de Diego no centro de São Paulo. Em poucos minutos, ele conseguiu uma garrafa de água, biscoitos, refrigerante, sanduíches de mortadela e um elogio.
“Você é bonito”, disse a moça loira com quem o garoto conversou rapidamente. Ele piscou, numa resposta charmosa. Ficou feliz.
Mas o menino de rua também sabe conseguir o que quer sem pedir ou usar o seu carisma. Ele rouba e conta sem meias palavras os segredos de seu “ofício”.
“Pego os celulares dos bolsos e as pessoas nem percebem”, diz. “Essa sua bolsa, com a alça fininha, é um perigo. É só puxar”, afirma, em tom de alerta, para a repórter.
Diego não sabe ler ou escrever. Já foi para a escola, mas não deu certo. Rebelde, arrumava brigas e mais brigas. Foi expulso e nunca mais voltou.
Segundo Censo da População em Situação de Rua na Municipalidade de São Paulo, realizado em 2011 pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, 212 crianças e 221 adolescentes vivem em situação de rua na capital, a maioria na região central da cidade.
O pequeno Davi, 2 anos, faz parte desse grupo. Mas, ao contrário de Diego, vive ao lado dos pais, que perambulam pelas ruas centrais e aceitam qualquer tipo de bico ou esmola.
“Todo dia corro atrás. Engraxo sapatos, peço comida, faço qualquer coisa”, conta Wilson, 40, o pai da criança.
Segundo ele, durante a noite a família aluga um quarto, onde ficam as roupas e brinquedos de Davi. À noite, a criança fica num carrinho ao lado dos pais. Dá tchau, manda beijinhos e, com sua simpatia, ajuda a família a ganhar um prato de comida ou dinheiro.
“Mas ele tem tudo que precisa. Não pediu para nascer, então corro atrás para cuidar dele”, garante o pai.
Diego passou a infância sem ter alguém para “correr atrás” por ele. Não sabe o que é brincar.
“A minha brincadeira sempre foi bater nas outras crianças”, afirma.
Resposta ainda mais desconcertante é a do amigo do adolescente, um menino de 13 anos que também vive nas ruas do centro e se nega a dizer o nome.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Arte, memória, escombros e loucura no antigo hospital
As paredes descascadas e os corredores sombrios do antigo Hospital Matarazzo, na região da avenida Paulista, nunca mais saíram da memória de quem assistiu a peça "O Livro de Jó", nos anos 1990, com a interpretação impressionante do ator Matheus Nachtergaele. Nu e coberto de sangue cênico, Matheus encontrou no espaço o cenário ideal para a atuação visceral.
Este ano o ex-complexo hospitalar recuperou o que parece ser uma vocação para as artes. Até domingo, dia 12, recebe a exposição "Made By...Feito por Brasileiros", que impressiona tanto quanto a encenação teatral de anos atrás.
O hospital está abandonado há duas décadas e foi comprado por um grupo francês para ser transformado num complexo comercial e turístico, com hotel, lojas, restaurantes, etc. Antes disso, 100 artistas foram convidados a fazer intervenções em grande parte dos 27 mil metros quadrados do local.
O resultado é espantoso e imperdível, a começar pela bela arquitetura do complexo e pela sensação de que aquelas paredes carregam muitas histórias - dos nascimentos às mortes.
Uma delas pode ser ficção - ou não. A intervenção artística de Vik Muniz é genial. Ele usou um dos quartos para contar "O curioso caso de Agenor Andrade Filho", cuja ficha médica teria sido encontrada num cofre no porão do hospital, embaixo da antiga sala da diretoria.
Agenor foi um contador solteiro e hipocondríaco, conhecido dos médicos e enfermeiros do hospital. Numa de suas internações, no entanto, a equipe médica encontrou cálculos no rins, extraiu e mandou para exames detalhados. Agenor morreu, vítima de infecção generalizada. Acontece que o especialista que recebeu o vidro com os tais cálculos não viu nada ali dentro, apesar do barulho das pedras no recipiente.
A conclusão foi que o contador conseguiu materializar em seu rim pedras que não existiam. Diz o relato que o médico responsável levou o caso para congressos e foi ridicularizado. É ficção, certo? Mas não parece. A intervenção de Vik Muniz inclui documentos de Agenor, inclusive a certidão de óbito. Tem também uma carta com toda a sua história de saúde. Radiografias. Fotos. E o vidro com os cálculos invisíveis.
Também impressiona o trabalho realizado em conjunto por Laura Vinci e José Miguel Wisnik na antiga lavanderia do hospital. Ela pendurou dezenas de papéis brancos que voam o tempo todo por causa do vento provocado por ventiladores. Wisnik preparou uma trilha musical perturbadora, assim como a visão dos escombros do local. Ao lado, litros e litros de água de reuso inundam outra parte da lavanderia, numa chuva assustadora e impactante na seca São Paulo.
Há muitos vídeos ao longo da exposição e o som deles percorre os corredores e quartos o tempo todo. São essenciais para as sensações difíceis de explicar para quem ainda não foi ver a "Made By". Entre tantos sons, um atrai em especial. É o barulho provocado pelo papel rasgado por uma artista que se desnuda em frente às câmeras e revela uma angústia palpável, pesada.
- Ela se matou aos 21 anos, pouco depois de produzir essa obra. Já faz algum tempo, mas ainda é uma artista contemporânea, explica o instrutor.
Outro artista, Hector Zamora, define sua intervenção no complexo hospitalar como um delírio. E é.. Ele levou dezenas de vasos de plantas para o andar superior do hospital. A partir dos janelões e das sacadas dos quartos, todos foram jogados ao mesmo tempo para um pátio, provocando barulho ensurdecedor. A encenação foi filmada e é exibida bem perto dos vasos espatifados e das plantas abandonadas à morte. Ou à vida, pois da devastação pode vir o renascimento, como Zamora explica aqui.
Banheiros, a intacta capela e até fossos de elevadores são ocupados por arte. Há loucuras de todos os tipos. Um exemplo: estátuas em ruínas de santos da capela foram levados para uma sala para a cura, à base de ervas. Um grupo de salas escuras assusta e atrai ao mesmo tempo, mas o que a gente encontra no final é acolhedor: puffs fofos e um vídeo em que músicos tocam e dão cores imaginárias a seus instrumentos.
Algumas dicas: use sapatos confortáveis para percorrer toda a exposição. Vá com disposição. E com a cabeça bem aberta.
O antigo Hospital Matarazzo fica na alameda Rio Claro, 190, Bela Vista.
A entrada é gratuita.
Este ano o ex-complexo hospitalar recuperou o que parece ser uma vocação para as artes. Até domingo, dia 12, recebe a exposição "Made By...Feito por Brasileiros", que impressiona tanto quanto a encenação teatral de anos atrás.
O hospital está abandonado há duas décadas e foi comprado por um grupo francês para ser transformado num complexo comercial e turístico, com hotel, lojas, restaurantes, etc. Antes disso, 100 artistas foram convidados a fazer intervenções em grande parte dos 27 mil metros quadrados do local.
O resultado é espantoso e imperdível, a começar pela bela arquitetura do complexo e pela sensação de que aquelas paredes carregam muitas histórias - dos nascimentos às mortes.
Uma delas pode ser ficção - ou não. A intervenção artística de Vik Muniz é genial. Ele usou um dos quartos para contar "O curioso caso de Agenor Andrade Filho", cuja ficha médica teria sido encontrada num cofre no porão do hospital, embaixo da antiga sala da diretoria.
Agenor foi um contador solteiro e hipocondríaco, conhecido dos médicos e enfermeiros do hospital. Numa de suas internações, no entanto, a equipe médica encontrou cálculos no rins, extraiu e mandou para exames detalhados. Agenor morreu, vítima de infecção generalizada. Acontece que o especialista que recebeu o vidro com os tais cálculos não viu nada ali dentro, apesar do barulho das pedras no recipiente.
A conclusão foi que o contador conseguiu materializar em seu rim pedras que não existiam. Diz o relato que o médico responsável levou o caso para congressos e foi ridicularizado. É ficção, certo? Mas não parece. A intervenção de Vik Muniz inclui documentos de Agenor, inclusive a certidão de óbito. Tem também uma carta com toda a sua história de saúde. Radiografias. Fotos. E o vidro com os cálculos invisíveis.
Também impressiona o trabalho realizado em conjunto por Laura Vinci e José Miguel Wisnik na antiga lavanderia do hospital. Ela pendurou dezenas de papéis brancos que voam o tempo todo por causa do vento provocado por ventiladores. Wisnik preparou uma trilha musical perturbadora, assim como a visão dos escombros do local. Ao lado, litros e litros de água de reuso inundam outra parte da lavanderia, numa chuva assustadora e impactante na seca São Paulo.
Há muitos vídeos ao longo da exposição e o som deles percorre os corredores e quartos o tempo todo. São essenciais para as sensações difíceis de explicar para quem ainda não foi ver a "Made By". Entre tantos sons, um atrai em especial. É o barulho provocado pelo papel rasgado por uma artista que se desnuda em frente às câmeras e revela uma angústia palpável, pesada.
- Ela se matou aos 21 anos, pouco depois de produzir essa obra. Já faz algum tempo, mas ainda é uma artista contemporânea, explica o instrutor.
Outro artista, Hector Zamora, define sua intervenção no complexo hospitalar como um delírio. E é.. Ele levou dezenas de vasos de plantas para o andar superior do hospital. A partir dos janelões e das sacadas dos quartos, todos foram jogados ao mesmo tempo para um pátio, provocando barulho ensurdecedor. A encenação foi filmada e é exibida bem perto dos vasos espatifados e das plantas abandonadas à morte. Ou à vida, pois da devastação pode vir o renascimento, como Zamora explica aqui.
Banheiros, a intacta capela e até fossos de elevadores são ocupados por arte. Há loucuras de todos os tipos. Um exemplo: estátuas em ruínas de santos da capela foram levados para uma sala para a cura, à base de ervas. Um grupo de salas escuras assusta e atrai ao mesmo tempo, mas o que a gente encontra no final é acolhedor: puffs fofos e um vídeo em que músicos tocam e dão cores imaginárias a seus instrumentos.
Algumas dicas: use sapatos confortáveis para percorrer toda a exposição. Vá com disposição. E com a cabeça bem aberta.
O antigo Hospital Matarazzo fica na alameda Rio Claro, 190, Bela Vista.
A entrada é gratuita.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Guerra (e samba) no centro de São Paulo
Mãe de três filhos, Iara (o nome é falso, a pedido da entrevistada) morava há seis meses no prédio invadido na avenida São João, quase na esquina com a Ipiranga, no centro de São Paulo. Sabia que nesta terça-feira (16) de manhã os policiais chegariam com uma ordem de reintegração de posse, mas achou que daria para negociar e continuar morando ali.
"Eles entraram jogando bombas de gás e atirando com balas de borracha. Tive que sair pela janela com meus filhos e pular para o outro prédio', contou, chorando. Os filhos, de 16, 13 e 10 anos, escaparam sem ferimentos. Ela ajudou a retirar outras crianças do local e, sentada na calçada, contou que agora vai morar na rua.
Enquanto os moradores saíam ou eram retirados pela polícia após a resistência inicial, grupos de jovens usando a tática black bloc apareceram e começaram um conflito que se espalhou pelo centro de São Paulo.
"A nossa intenção não era guerrear e sim ficar no prédio", disse Sebastião Oliveira, um dos líderes dos sem-teto. "Mas apareceu um monte de gente e começou o vandalismo. Essas pessoas não tinham nada a ver com o momento".
Em bandos, mascarados e com pedaços de pedras e paus nas mãos, os jovens saquearam lojas, destruíram orelhões e lixeiras, formaram barricadas e colocaram fogos em objetos no meio da rua. Um ônibus articulado foi queimado em frente ao Theatro Municipal. Na rua Barão de Itapetininga, uma loja de celulares e uma lanchonete tiveram as portas destruídas.
As lojas fecharam as portas. Dezenas de pedestres se esconderam dentro de prédios e galerias. Durante toda a manhã, as bombas da Polícia Militar compuseram a trilha sonora de guerra na região central. Do alto, helicópteros da polícia seguiam os grupos e orientavam os policiais que estavam no chão.
"Vamos para a prefeitura. A rua é nossa", gritavam alguns jovens. "É o apocalipse", berrou um evangélico. "A guerra vai começar", anunciou um pedestre, correndo para aderir ao quebra-quebra.
Dezenas de pessoas fotografaram e filmaram tudo. Alguns usavam máscaras de proteção cirúrgica para escapar dos efeitos do gás lacrimogêneo.
No cruzamento da rua 7 de Abril com a Xavier Toledo, um grupo derrubou e destruiu uma cabine de fiscalização do transporte coletivo. Em meio à gritaria, o som de um pandeiro persistiu num samba fora de hora. E um morador de rua aproveitou para fazer o seu protesto.
"Esse é o país do futebol. A guerra não é aqui não. É só no Iraque", ironizou.
Na mesma região, um engravatado levou uma pedrada sem ter feito nada, apenas porque estava passando. Um cinegrafista também apanhou dos jovens enraivecidos. Do alto de outros prédios ocupados, pedras eram jogadas na polícia.
Segundo o comandante da operação da PM no centro, Glauco Silva de Carvalho, houve a tentativa de negociar com os ocupantes do prédio durante duas horas. No entanto, moradores começaram a jogar objetos nos policias e então veio o conflito.
O prédio ocupado é a antiga sede do Aquarius Hotel e fica próximo à esquina das rua Ipiranga com a avenida São João, um endereço que virou símbolo da cidade por causa de "Sampa", a canção em que Caetano Veloso declarou seu amor a São Paulo.
Duzentas famílias moravam ali.
"A gente até propôs pagar aluguel, mas os proprietários não quiseram", disse um dos ex-moradores. "Pagaríamos R$ 100 por mês, porque até reformamos o prédio".
São Paulo. A cidade que ergue e destrói coisas belas.
domingo, 14 de setembro de 2014
Reencontro com Cazuza
Apesar
do meu grande amor por Cazuza, pintou uma dúvida na hora de resolver
se assistiria ou não “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz. O Musical”,
em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. O primeiro
motivo é óbvio: está caro ir ao teatro. O segundo é mais ou menos
óbvio: os musicais estão na moda e alguns são melhores na
divulgação do que no conteúdo. Terceiro motivo, acho que bem
compreensível também: é difícil confiar nas críticas hoje em dia
(e talvez sempre tenha sido). Então, a gente nunca sabe o que é bom
ou não.
Enfim...
O
fato é que o amor da antiga adolescência venceu o medo. E fui ver
“Cazuza”. O resultado: voltaria mais uma, duas, três vezes.
Talvez
seja uma sensação de quem viveu aquilo tudo. Não esqueço o dia em
que o cantor e compositor morreu. Não era para ser um susto. Com
Aids, ele estava muito mal. A revista “Veja” estampara em sua
capa uma foto chocante, com título ainda mais chocante e texto que
fez o artista passar mal e precisar ser socorrido, como conta a peça.
Mesmo
assim, dei um grito espantado e machucado ao ouvir, pela TV, a notícia sobre a morte. Ali
terminou, oficialmente, minha adolescência. Já havia acabado há
alguns anos, mas foi nesse dia que acabou de vez. E isso dói.
Encantada
pelo espetáculo já nos primeiros minutos, pensei: mas o que faz
esse musical ser melhor do que os outros? No caso de “Cazuza”, o
despudor é uma boa explicação. Por decisão de Lucinha Araújo, a
mãe onipresente, a vida de Cazuza é um livro aberto. Portanto,
estão na peça os escândalos, o uso de drogas, os grandes amores
gays e até mesmo a agressividade assustadora do poeta em seus
últimos anos de vida.
Outra
explicação é o grande talento dos jovens atores, músicos e
dançarinos. É muito animador ver garotos e garotas brilharem no
palco. Assisti ao espetáculo num dia em que Bruno Narchi
interpretava Cazuza. Ele alterna as apresentações como Emílio
Dantas, consagrado pelo papel no teatro. Bruno é excelente. Não
ficou tão famoso como o colega, pelo menos por enquanto. No entanto,
também impressiona com a voz e os trejeitos do cantor.
Entendi
que o fato de dois atores encarnarem tão bem Cazuza está
relacionado a um bem sucedido trabalho de equipe e não ao fato do
espírito do cantor baixar em dois artistas diferentes, em dias
alternados. Bruno fica parecido com Cazuza no início da fama, quando
o artista era um garoto lindo, no meio da trajetória, já afetado
pela Aids, e no final, bastante enfraquecido, esquelético, com a voz
fraca e na cadeira de rodas. Ou seja, ali há um incrível trabalho
de preparação do ator, direção, maquiagem e iluminação.
Trabalho de equipe. Mesmo.
Assistir
à peça foi também um reencontro com Cazuza. O poeta da minha
geração teve apenas oito anos de carreira, deixou uma obra
memorável, mas não tão vasta e, talvez, um pouco datada. Durante
um tempo, parei de ouvir. No reencontro, resgatei emoções,
traduzidas em fortes arrepios em vários momentos do musical.
Como
são bons esses arrepios.
Aqui, uma das minhas canções preferidas, "Blues da Piedade"
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