domingo, 12 de outubro de 2014

A infância, sob tensão, num prédio ocupado


Fotos: Su Stathopoulos

Sentada na escadaria do antigo Columbia Palace Hotel, na avenida São João, centro de São Paulo, a menina Maria Eduarda, a Duda, 9 anos, tenta encontrar alguma novidade nos três livros que possui, um deles didático e os outros dois de histórias infantis.

 “Eu gosto muito de ler, mas só tenho esses três livros e estou cansada deles”, revela, enquanto acompanha as tentativas do irmão mais novo, Pedro, 7, de jogar futebol num dos corredores do prédio.

Os dois irmãos são moradores de uma das 40 ocupações feitas por sem teto no centro de São Paulo. Vivem a rotina típica da infância: vão para a escola, brincam, frequentam cursos extras, levam bronca e, às vezes, brigam com amiguinhos.

No entanto, há um clima tenso no dia a dia dos pequenos. Os 200 moradores, alojados no prédio de seis andares desde o dia 3 de outubro de 2010, podem ser expulsos a qualquer momento por causa do processo de reintegração de posse que corre na Justiça de São Paulo. Os adultos falam sobre esse temor o tempo todo. As crianças percebem o nervosismo. O medo fica suspenso no ar.

“Esses dias faltei na escola. Mas não gosto de fazer isso. Queria ter ido”, conta Duda.

O dia da falta é simbólico para os militantes dos movimentos sem teto de São Paulo – e para a própria cidade. Duda não foi para a escola porque a avenida em que mora virou palco de uma guerra entre policiais militares e ocupantes do prédio vizinho, construído para ser sede do hotel Aquarius e então ocupado há seis meses por famílias parecidas com as da menina.

A reintegração de posse do dia 16 de setembro ocorreu em meio a desespero, bombas de efeito moral disparadas pela polícia, gritos, móveis e outros objetos jogados pelos moradores e um conflito que se espalhou pelas ruas da região central.

Bem em frente, no antigo Hotel Columbia, as crianças viram e ouviram tudo. Sentiram medo da violência e também de perder a moradia. Viveram uma tarde invadida pelo cheiro do gás de efeito moral e por sustos causados pelo barulho das bombas.

“Tenho medo de não ter onde viver com minha filha. Medo de precisar morar num lugar em que não encontre serviço para mim e escola para ela”, explica Luzilene dos Santos Silva, mãe de Raíssa, 6, ao justificar sua decisão de viver na região central de São Paulo, num prédio ocupado.  

Segundo a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), mais da metade da população mundial mora hoje em áreas urbanas. Isso inclui um bilhão de crianças. Muitas ainda não têm acesso a escolas, hospitais e áreas de lazer, uma realidade ainda comum nas periferias das grandes cidades.

De acordo com dados do FLM (Frente de Luta por Moradia ), fatores como os baixos salários, desemprego e trabalho informal, especulação imobiliária e finanças públicas “drenadas para o setor parasitário (agiotas e rentistas)” excluem os trabalhadores sem teto das regiões urbanizadas e os empurram para a periferia.

No centro de São Paulo, a vida das mães, pais e de seus filhos é um pouco mais fácil do que nos bairros periféricos. A região oferece uma ampla rede de serviços: escolas, hospitais, centros de lazer, museus, praças.

O filho mais velho da agente comunitária de saúde Vanessa Cristina de Oliveira do Prado, por exemplo, vai todo dia a pé e sozinho para a escola. O adolescente tem 14 anos e, nos quatro anos em que vive na ocupação da São João, já conseguiu frequentar cursos de bombeiro mirim, circo e computação.

O mais novo, de oito anos, costuma passar horas na biblioteca no próprio prédio e também já participou de saraus literários promovidos pelos sem teto. São comuns também os passeios culturais em grupo. 

“Coisas que na periferia são mais difíceis. Se eu sair daqui, não tenho para onde ir. Com o que ganho, pagaria só o aluguel. Aqui, conquistei muita coisa para os meus filhos”, diz a mãe.

E também para ela. Vanessa concluiu o ensino médio e agora planeja ir para a faculdade. Quer cursar farmácia. Ela e os filhos dividem dois cômodos no antigo hotel com outra família, formada por avó e neto. Na hora de dormir, é preciso colocar colchões no chão do quarto. O outro cômodo funciona como cozinha.

Segundo o advogado Benedito Barbosa, o Dito, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, a insegurança provocada pelo medo das reintegrações de posse é o principal problema das meninas e meninos que vivem nas ocupações urbanas.

“No Brasil há a prevalência do direito à propriedade e não do direito à moradia”, critica. “O país nunca teve uma reforma urbana. A lógica da expulsão dos pobres é antiga”.

Dito deixa claros os objetivos dos movimentos que ocupam prédios abandonados no centro de São Paulo: forçar o poder público a investir em projetos de moradias populares.

No dia 24 de agosto, a Prefeitura de São Paulo assinou convênio junto ao governo do estado para o lançamento de licitação de Parceria Público-Privada para habitações no centro expandido. Serão implantadas 14.124 unidades habitacionais. O projeto inclui também a instalação de equipamentos públicos, infraestrutura e áreas de comércio e serviços, com investimento total de R$ 3,5 bilhões.

Sonhos

Ao contrário do que podem pensar os que nunca entraram num prédio ocupado por sem teto, a organização e a limpeza são regras rígidas no prédio do antigo Columbia. Há controle também sobre o uso de álcool e atenção aos conflitos familiares.  

O hotel estava abandonado há quase duas décadas quando virou moradia popular. Homens, mulheres e crianças precisaram tirar muito lixo dos quartos e corredores. Também providenciaram uma reforma para poder usar os banheiros.

Num jardim de inverno do passado, o esforço coletivo transformou em área de lazer um espaço inundado por água suja e apelidado de piscina.  A anacrônica máquina de lavar do hotel, quase uma relíquia, hoje é usada como churrasqueira.

Os meninos e meninas do prédio têm a sorte de ter como vizinha a cenógrafa Nazaré Brasil, 48, uma ativista social preocupada em levar cultura para as crianças da ocupação.

“Quero despertar nas crianças o que elas têm de melhor”, explica.

Entre as atividades lideradas por Nazaré estão sessões num cineclube dentro do prédio, teatro, leitura, passeios, aulas e exposição de desenhos e pinturas.

O prédio todo é decorado com fotos artísticas e quadros produzidos pelos próprios moradores. Num dos passeios, as crianças fotografaram o centro e puderam expressar o pensam sobre a região onde moram. Na biblioteca, os livros infantis dividem espaço com as obras adultas.

“As crianças são discriminadas nas escolas e em outros locais que frequentam. A leitura é uma forma de fugir dessa realidade triste”, afirma Adalberto Rodrigues Soares, 42, um dos coordenadores da ocupação na avenida São João.

Endurecido pelas dificuldades da vida, Adalberto não resiste e chora ao falar sobre a tentativa de abrir o horizonte dos pequenos sem teto.

“É muito triste não ter sonhos”, diz.   

Alheio à tensão que percorre todos os espaços do prédio, Mateus, 8, exerce como ninguém o seu direito ao sonho. Anda de um lado para o outro com sua barraquinha infantil, ótima para as brincadeiras de faz de conta.

“Dá até para fingir que é uma casa”, alegra-se. 



Nas ruas, uma realidade cruel

Diego é o nome de “guerra” do adolescente de 16 anos, um dos andarilhos de São Paulo. Ele vive nos arredores da praça Dom Gaspar há dez anos. Não sabe – ou não revela – onde estão os pais. 

Aprendeu a pedir comida, água, bebida, dinheiro, roupa ou qualquer outra coisa para as pessoas que encontra no caminho.

A reportagem acompanhou uma tarde de Diego no centro de São Paulo. Em poucos minutos, ele conseguiu uma garrafa de água, biscoitos, refrigerante, sanduíches de mortadela e um elogio.

“Você é bonito”, disse a moça loira com quem o garoto conversou rapidamente. Ele piscou, numa resposta charmosa. Ficou feliz.

Mas o menino de rua também sabe conseguir o que quer sem pedir ou usar o seu carisma. Ele rouba e conta sem meias palavras os segredos de seu “ofício”.

“Pego os celulares dos bolsos e as pessoas nem percebem”, diz. “Essa sua bolsa, com a alça fininha, é um perigo. É só puxar”, afirma, em tom de alerta, para a repórter.

Diego não sabe ler ou escrever. Já foi para a escola, mas não deu certo. Rebelde, arrumava brigas e mais brigas. Foi expulso e nunca mais voltou.

Segundo Censo da População em Situação de Rua na Municipalidade de São Paulo, realizado em 2011 pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, 212 crianças e 221 adolescentes vivem em situação de rua na capital, a maioria na região central da cidade.

O pequeno Davi, 2 anos, faz parte desse grupo. Mas, ao contrário de Diego, vive ao lado dos pais, que perambulam pelas ruas centrais e aceitam qualquer tipo de bico ou esmola.

“Todo dia corro atrás. Engraxo sapatos, peço comida, faço qualquer coisa”, conta Wilson, 40, o pai da criança.

Segundo ele, durante a noite a família aluga um quarto, onde ficam as roupas e brinquedos de Davi. À noite, a criança fica num carrinho ao lado dos pais. Dá tchau, manda beijinhos e, com sua simpatia, ajuda a família a ganhar um prato de comida ou dinheiro.

“Mas ele tem tudo que precisa. Não pediu para nascer, então corro atrás para cuidar dele”, garante o pai.

Diego passou a infância sem ter alguém para “correr atrás” por ele. Não sabe o que é brincar.

“A minha brincadeira sempre foi bater nas outras crianças”, afirma.

Resposta ainda mais desconcertante é a do amigo do adolescente, um menino de 13 anos que também vive nas ruas do centro e se nega a dizer o nome.



“Minha brincadeira é usar drogas”, revela, com os olhos cerrados e a voz rouca de tanto cheirar cola e fumar crack.



quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Arte, memória, escombros e loucura no antigo hospital

As paredes descascadas e os corredores sombrios do antigo Hospital Matarazzo, na região da avenida Paulista, nunca mais saíram da memória de quem assistiu a peça "O Livro de Jó", nos anos 1990, com a interpretação impressionante do ator Matheus Nachtergaele. Nu e coberto de sangue cênico, Matheus encontrou no espaço o cenário ideal para a atuação visceral.

Este ano o ex-complexo hospitalar recuperou o que parece ser uma vocação para as artes. Até domingo, dia 12, recebe a exposição "Made By...Feito por Brasileiros", que impressiona tanto quanto a encenação teatral de anos atrás.

O hospital está abandonado há duas décadas e foi comprado por um grupo francês para ser transformado num complexo comercial e turístico, com hotel, lojas, restaurantes, etc. Antes disso, 100 artistas foram convidados a fazer intervenções em grande parte dos 27 mil metros quadrados do local.

O resultado é espantoso e imperdível, a começar pela bela arquitetura do complexo e pela sensação de que aquelas paredes carregam muitas histórias - dos nascimentos às mortes.

Uma delas pode ser ficção - ou não. A intervenção artística de Vik Muniz é genial. Ele usou um dos quartos para contar "O curioso caso de Agenor Andrade Filho", cuja ficha médica teria sido encontrada num cofre no porão do hospital, embaixo da antiga sala da diretoria.

Agenor foi um contador solteiro e hipocondríaco, conhecido dos médicos e enfermeiros do hospital. Numa de suas internações, no entanto, a equipe médica encontrou cálculos no rins, extraiu e mandou para exames detalhados. Agenor morreu, vítima de infecção generalizada. Acontece que o especialista que recebeu o vidro com os tais cálculos não viu nada ali dentro, apesar do barulho das pedras no recipiente.

A conclusão foi que o contador conseguiu materializar em seu rim pedras que não existiam. Diz o relato que o médico responsável levou o caso para congressos e foi ridicularizado. É ficção, certo? Mas não parece. A intervenção de Vik Muniz inclui documentos de Agenor, inclusive a certidão de óbito. Tem também uma carta com toda a sua história de saúde. Radiografias. Fotos. E o vidro com os cálculos invisíveis.

Também impressiona o trabalho realizado  em conjunto por Laura Vinci e José Miguel Wisnik na antiga lavanderia do hospital. Ela pendurou dezenas de papéis brancos que voam o tempo todo por causa do vento provocado por ventiladores. Wisnik preparou uma trilha musical perturbadora, assim como a visão dos escombros do local. Ao lado, litros e litros de água de reuso inundam outra parte da lavanderia, numa chuva assustadora e impactante na seca São Paulo.

Há muitos vídeos ao longo da exposição e o som deles percorre os corredores e quartos o tempo todo. São essenciais para as sensações difíceis de explicar para quem ainda não foi ver a "Made By". Entre tantos sons, um atrai em especial. É o barulho provocado pelo papel rasgado por uma artista que se desnuda em frente às câmeras e revela uma angústia palpável, pesada.

- Ela se matou aos 21 anos, pouco depois de produzir essa obra. Já faz algum tempo, mas ainda é uma artista contemporânea, explica o instrutor.

Outro artista, Hector Zamora, define sua intervenção no complexo hospitalar como um delírio. E é.. Ele levou dezenas de vasos de plantas para o andar superior do hospital. A partir dos janelões e das sacadas dos quartos, todos foram jogados ao mesmo tempo para um pátio, provocando barulho ensurdecedor. A encenação foi filmada e é exibida bem perto dos vasos espatifados e das plantas abandonadas à morte. Ou à vida, pois da devastação pode vir o renascimento, como Zamora explica aqui.

Banheiros, a intacta capela e até fossos de elevadores são ocupados por arte. Há loucuras de todos os tipos. Um exemplo: estátuas em ruínas de santos da capela foram levados para uma sala para a cura, à base de ervas. Um grupo de salas escuras assusta e atrai ao mesmo tempo, mas o que a gente encontra no final é acolhedor: puffs fofos e um vídeo em que músicos tocam e dão cores imaginárias a seus instrumentos.

Algumas dicas: use sapatos confortáveis para percorrer toda a exposição. Vá com disposição. E com a cabeça bem aberta.

O antigo Hospital Matarazzo fica na alameda Rio Claro, 190, Bela Vista.

A entrada é gratuita.





terça-feira, 16 de setembro de 2014

Guerra (e samba) no centro de São Paulo

Mãe de três filhos, Iara (o nome é falso, a pedido da entrevistada) morava há seis meses no prédio invadido na avenida São João, quase na esquina com a Ipiranga, no centro de São Paulo. Sabia que nesta terça-feira (16) de manhã os policiais chegariam com uma ordem de reintegração de posse, mas achou que daria para negociar e continuar morando ali.
"Eles entraram jogando bombas de gás e atirando com balas de borracha. Tive que sair pela janela com meus filhos e pular para o outro prédio', contou, chorando. Os filhos, de 16, 13 e 10 anos, escaparam sem ferimentos. Ela ajudou a retirar outras crianças do local e, sentada na calçada, contou que agora vai morar na rua.
Enquanto os moradores saíam ou eram retirados pela polícia após a resistência inicial, grupos de jovens usando a tática black bloc apareceram e começaram um conflito que se espalhou pelo centro de São Paulo.
"A nossa intenção não era guerrear e sim ficar no prédio", disse Sebastião Oliveira, um dos líderes dos sem-teto. "Mas apareceu um monte de gente e começou o vandalismo. Essas pessoas não tinham nada a ver com o momento".
Em bandos, mascarados e com pedaços de pedras e paus nas mãos, os jovens saquearam lojas, destruíram orelhões e lixeiras, formaram barricadas e colocaram fogos em objetos no meio da rua. Um ônibus articulado foi queimado em frente ao Theatro Municipal. Na rua Barão de Itapetininga, uma loja de celulares e uma lanchonete tiveram as portas destruídas.
As lojas fecharam as portas. Dezenas de pedestres se esconderam dentro de prédios e galerias. Durante toda a manhã, as bombas da Polícia Militar compuseram a trilha sonora de guerra na região central. Do alto, helicópteros da polícia seguiam os grupos e orientavam os policiais que estavam no chão.
"Vamos para a prefeitura. A rua é nossa", gritavam alguns jovens. "É o apocalipse", berrou um evangélico. "A guerra vai começar", anunciou um pedestre, correndo para aderir ao quebra-quebra.
Dezenas de pessoas fotografaram e filmaram tudo. Alguns usavam máscaras de proteção cirúrgica para escapar dos efeitos do gás lacrimogêneo.
No cruzamento da rua 7 de Abril com a Xavier Toledo, um grupo derrubou e destruiu uma cabine de fiscalização do transporte coletivo. Em meio à gritaria, o som de um pandeiro persistiu num samba fora de hora. E um morador de rua aproveitou para fazer o seu protesto.
"Esse é o país do futebol. A guerra não é aqui não. É só no Iraque", ironizou.
Na mesma região, um engravatado levou uma pedrada sem ter feito nada, apenas porque estava passando. Um cinegrafista também apanhou dos jovens enraivecidos. Do alto de outros prédios ocupados, pedras eram jogadas na polícia.
Segundo o comandante da operação da PM no centro, Glauco Silva de Carvalho, houve a tentativa de negociar com os ocupantes do prédio durante duas horas. No entanto, moradores começaram a jogar objetos nos policias e então veio o conflito.
O prédio ocupado é a antiga sede do Aquarius Hotel e fica próximo à esquina das rua Ipiranga com a avenida São João, um endereço que virou símbolo da cidade por causa de "Sampa", a canção em que Caetano Veloso declarou seu amor a São Paulo.
Duzentas famílias moravam ali.
"A gente até propôs pagar aluguel, mas os proprietários não quiseram", disse um dos ex-moradores. "Pagaríamos R$ 100 por mês, porque até reformamos o prédio".
São Paulo. A cidade que ergue e destrói coisas belas.

domingo, 14 de setembro de 2014

Reencontro com Cazuza


Apesar do meu grande amor por Cazuza, pintou uma dúvida na hora de resolver se assistiria ou não “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz. O Musical”, em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. O primeiro motivo é óbvio: está caro ir ao teatro. O segundo é mais ou menos óbvio: os musicais estão na moda e alguns são melhores na divulgação do que no conteúdo. Terceiro motivo, acho que bem compreensível também: é difícil confiar nas críticas hoje em dia (e talvez sempre tenha sido). Então, a gente nunca sabe o que é bom ou não.

Enfim...

O fato é que o amor da antiga adolescência venceu o medo. E fui ver “Cazuza”. O resultado: voltaria mais uma, duas, três vezes.

Talvez seja uma sensação de quem viveu aquilo tudo. Não esqueço o dia em que o cantor e compositor morreu. Não era para ser um susto. Com Aids, ele estava muito mal. A revista “Veja” estampara em sua capa uma foto chocante, com título ainda mais chocante e texto que fez o artista passar mal e precisar ser socorrido, como conta a peça.

Mesmo assim, dei um grito espantado e machucado ao ouvir, pela TV, a notícia sobre a morte. Ali terminou, oficialmente, minha adolescência. Já havia acabado há alguns anos, mas foi nesse dia que acabou de vez. E isso dói.

Encantada pelo espetáculo já nos primeiros minutos, pensei: mas o que faz esse musical ser melhor do que os outros? No caso de “Cazuza”, o despudor é uma boa explicação. Por decisão de Lucinha Araújo, a mãe onipresente, a vida de Cazuza é um livro aberto. Portanto, estão na peça os escândalos, o uso de drogas, os grandes amores gays e até mesmo a agressividade assustadora do poeta em seus últimos anos de vida.

Outra explicação é o grande talento dos jovens atores, músicos e dançarinos. É muito animador ver garotos e garotas brilharem no palco. Assisti ao espetáculo num dia em que Bruno Narchi interpretava Cazuza. Ele alterna as apresentações como Emílio Dantas, consagrado pelo papel no teatro. Bruno é excelente. Não ficou tão famoso como o colega, pelo menos por enquanto. No entanto, também impressiona com a voz e os trejeitos do cantor.

Entendi que o fato de dois atores encarnarem tão bem Cazuza está relacionado a um bem sucedido trabalho de equipe e não ao fato do espírito do cantor baixar em dois artistas diferentes, em dias alternados. Bruno fica parecido com Cazuza no início da fama, quando o artista era um garoto lindo, no meio da trajetória, já afetado pela Aids, e no final, bastante enfraquecido, esquelético, com a voz fraca e na cadeira de rodas. Ou seja, ali há um incrível trabalho de preparação do ator, direção, maquiagem e iluminação. Trabalho de equipe. Mesmo.

Assistir à peça foi também um reencontro com Cazuza. O poeta da minha geração teve apenas oito anos de carreira, deixou uma obra memorável, mas não tão vasta e, talvez, um pouco datada. Durante um tempo, parei de ouvir. No reencontro, resgatei emoções, traduzidas em fortes arrepios em vários momentos do musical.


Como são bons esses arrepios.

Aqui, uma das minhas canções preferidas, "Blues da Piedade" 


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A impressionante memória do Martinelli

Dizem que o edifício Martinelli, no centro de São Paulo, é um dos lugares mal-assombrados da cidade. Não faltam histórias reais para alimentar a lenda.

Nas décadas de 1960 e 1970, o prédio foi abandonado e virou um grande cortiço. Transformou-se em cenário para crimes bárbaros como o do menino Davilson, estrangulado e jogado no poço do elevador.
Lixo acumulado, brigas, desmandos de um chefão que ocupou o palacete do topo e outras mortes deixaram o lugar, antes luxuoso, com ar de maldito.

Imagino que devia ser considerado perigoso até mesmo passar na frente de suas portas.

Essas histórias são contadas por Edson Cabral, o relações públicas do edifício, um guia orgulhoso das informações que possui e sabe muito bem transmitir. Acompanhei as explicações ao lado de um grupo de turistas americanos encantados com a arquitetura e a memória do local, hoje vivendo dias melhores. Cabral dá show de simpatia no topo do prédio. E de graça, sempre vale ressaltar.

O Martinelli é impressionante de todos os lados, fora e dentro, no passado e no presente.

O edifício é o primeiro arranha-céu de São Paulo. Lembro dos mais antigos falando dos grandes prédios nas metrópoles com espanto na voz. Não era comum ver uma obra avançando em direção ao céu, muito menos morar no alto. E eram belos e ricos edifícios, impossível comparar com os caixotes ou as breguices tão comuns hoje em dia.

A obra foi idealizada e construída pelo italiano Giuseppe Martinelli, um empreendedor bem sucedido e meio maluco. Ele planejou erguer o primeiro arranha-céu da América do Sul e sua empolgação natural foi alimentada por pessoas que viam o prédio e sugeriam mais e mais andares.

A construção foi embargada, ameaçou um prédio vizinho e assustou os vizinhos. Eles temiam o desmoronamento do prédio projetado para ter 12 andares e que chegou aos 30, entre as ruas São Bento, Líbero Badaró e a avenida São João. O próprio Martinelli assumiu o projeto arquitetônico a certa altura da "loucura". Fez mais: colocou a mão na massa e trabalhou como pedreiro, lembrando o inicio de sua vida profissional.

O toque de mestre foi a decisão de construir o palacete da família no alto do edifício, para que ele chegasse aos 30 andares e a população ficasse tranquila. Se o próprio empresário e a família moravam no topo, era sinal de que o Martinelli não desabaria.  
Depois da fase decadente, o condomínio foi recuperado e hoje sedia várias repartições públicas. É uma pena, no entanto, que o palacete da família Martinelli esteja desocupado e não possa ser conhecido por dentro. As visitas guiadas são feitas no terraço da mansão, no alto, o que aumenta a vontade de percorrer seus cinco andares. Há a promessa de instalação de um centro cultural ali. Tomara que saia do papel.

É comum o terraço ser escolhido como cenário para filmes, peças publicitárias e editoriais de moda. Não tem bobo no mundo das imagens.

Artesãos espanhóis e italianos foram os responsáveis pelo acabamento no edifício, que inclui escadas de mármore de Carrara, papéis de parede belga, louça inglesa, pinturas espalhadas pelas paredes e arabescos.  
Cabral e as testemunhas do passado dizem que o prédio brilhava a noite por causa da mistura de vidro moído, cristal de rocha, areias puras e pó-de-mica em sua pintura. Sobrou um pouco do brilho para os dias atuais e, alertados pelo relações públicas, todo mundo pode comprovar essa bela extravagância do italiano empreendedor.

A história do Martinelli não para por aí. Passa também pelas dificuldades do empresário, que, cheio de problemas financeiros, perdeu seu sonhado edifício para o governo italiano. Tentaram mudar o nome para América depois que ele foi confiscado, na época em que o governo brasileiro declarou guerra aos italianos.

Conta Cabral que o empreendedor conseguiu enriquecer novamente, dessa vez no Rio de Janeiro. Morreu e deixou uma fortuna para a família, mas a segunda mulher e um dos filhos perderam tudo novamente. Segundo o guia, a viúva e o filho terminaram os dias perambulando pelas ruas do Rio.

As visitas guiadas são feitas de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 11h30 e das 14h às 16h; sábados, das 9h às 15h; e domingos,  das 9h às 13h.

A entrada é pela avenida São João e o telefone para contato é o (11) 3104-2477.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

No cemitério

Há um passeio guiado no Cemitério da Consolação, mas numa tarde de folga a decisão foi de andar sem programação. Sempre acontece alguma coisa interessante. Sempre. Então, entrei  sozinha. Quem sabe não acharia, mesmo sem orientação, as famosas esculturas encomendadas a artistas renomados? Ou túmulos históricos?

O passeio guiado com certeza ajuda muito quem procura informações, mas andar sozinha também é interessante. Quase escrevo divertido, mas ficaria um pouco demais usar essa definição para o lugar visitado.

O primeiro túmulo avistado foi o da Marquesa de Santos, personagem de São Paulo com que já “encontrei”, sem planejar, numa volta sem pretensões pelo centro da cidade.
Na primeira vez, perdi a noção do tempo ao percorrer o solar transformado em museu, no lugar onde a bela dama viveu após ser despachada da corte de D. Pedro I, seu amante. 

Dessa vez, entrei no cemitério e, à direita, vi o túmulo simples, que não remete aos anos de glamour vividos por Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), transformada em marquesa por um gesto apaixonado e cheio de afronta do imperador.

Singelo, o túmulo da paulistana é, no entanto, dos mais interessantes. Rica, poderosa e caridosa, ela é uma das doadoras de dinheiro para a construção de parte do cemitério numa época em que ficou impossível seguir enterrando corpos no interior das igrejas. A doação da marquesa permitiu a construção da capela, próxima ao seu túmulo.

Uma placa informa sobre o gesto da velha dama. Outra pede para os visitantes não acenderem velas ou depositarem objetos no local. Outras três são de supostos beneficiados por graças concedidas por Domitila, conhecida em São Paulo pelos saraus promovidos no antigo casarão e por ser uma mulher de vanguarda.

Solta no cemitério, mas em busca de um pouco de direção, pergunto a um funcionário onde ficam os túmulos mais antigos.

- Ah, fia, não tem isso aqui não. É tudo misturado.

Sem guia, notei que o túmulo do empresário e mecenas Armando Álvares Penteado (1884-1947) é uma das peças valiosas da Consolação, mas não entendi o significado da capela negra e marrom, com oito pilares. Anotei a impressão de ter visto um monumento moderno, com toque oriental. Ao pesquisar, soube que a capela lembra a casa em que o mecenas viveu. O tal toque oriental ficou por minha conta. 

O jazigo da família Siniscalchi, construído no início do século 20, é dos mais bonitos e impressionantes. Moldado pela tradicional Marmoraria J. Savoia, é uma réplica de catedral gótica, com todos os seus detalhes. Uma obra de arte. 

Muito mais simples, mas também impressionante é o túmulo de Maria Judith de Barros, que teria morrido vítima da violência do marido. O túmulo é completamente coberto por placas de agradecimento de pessoas que teriam conseguido milagres com a ajuda da “santa popular”. Não dá para contar, tantas são as placas.

O jornalista Marcelo Duarte, autor da série de livros “O Guia dos Curiosos”, conta na publicação “São Paulo para Curiosos” que nos últimos anos Judith costuma ser muito procurada por vestibulandos desesperados para conquistar uma vaga na faculdade. Muitas das placas que estão ali são de estudantes bem sucedidos em seus objetivos. Sensacional.

Grandioso, como tudo na família, o mausoléu dos Matarazzo ocupa seis terrenos, segue o estilo pós-renascentista e, de tão monumental, chega a ser assustador com suas esculturas em bronze e granito. Ali, lamentei não ter talento para a fotografia. Num dos ângulos, o mausoléu contrasta com um prédio moderno (e feio), todo espelhado, na vizinhança. Passado e futuro se encontram num dos cantos mais silenciosos e escuros do cemitério. Sim, deu medo. 

Mais adiante, a espetacular escultura representando uma mulher cabisbaixa é do artista Antônio Celso, no túmulo de Lydia Piza de Rangel Moreira. Não sei quem são, mas basta olhar para ter a certeza: é uma das obras mais belas do local.  Selfies feitas no cemitério e espalhadas pelas redes sociais confirmam: a escultura é um dos cenários prediletos dos que não resistem ao ato de tirar fotos de si mesmos, em qualquer hora e lugar.

De Victor Brecheret, a clássica escultura Sepultamento, na foto, fica no túmulo da família Guedes Penteado. Mostra Cristo, sua mãe e quatro santas. É obra premiada do grande escultor. Só ela já vale a visita.

Para ler
Numa linguagem divertida e levemente picante, Paulo Setubal conta no livro “A Marquesa de Santos” a história da amante de D. Pedro I, da juventude à fase em que ela entrou em decadência na corte e foi obrigada a voltar a São Paulo.

  

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A rua literária no centro de São Paulo

A campanha em defesa do petróleo brasileiro levou o escritor Monteiro Lobato à prisão, amargura e pobreza. Era assim, desgostoso, que ele vivia num apartamento na Barão de Itapetininga, uma das ruas literárias no centro antigo de São Paulo.

Como mostra o livro  "São Paulo Literalmente", do escritor, jornalista e fotógrafo João Correia Filho, foi nessa rua que Lobato morreu, no edifício Jaraguá.

Levei um susto ao ler isso porque já havia passado várias vezes por ali sem saber de nada. O fato da Itapetininga ligar a praça da República ao Teatro Municipal já parecia suficientemente encantador. Hoje fui até o local para ver de perto e com mais atenção o prédio do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Sim, sou dessas.

Pois está lá a placa que informa sobre a morte do grande escritor, na madrugada do dia 4 de julho de 1948, vítima do que a imprensa da época chamava de "espasmo" cerebral. Foi o segundo e fatal espasmo do atormentado escritor na fase final de sua vida.

Dali, o corpo foi levado para a Biblioteca Mário de Andrade, na época biblioteca municipal, também na região. O velório e o enterro, no cemitério da Consolação, provocaram grande comoção. O Brasil perdia um de seus grandes escritores e também um homem cuja visão política não era valorizada como merecia. O sepultamento transformou-se numa das maiores (e raras) homenagens populares a um escritor brasileiro.

Parei em frente à placa no edifício e um moço ao lado virou-se para ver o que eu lia. Ele não havia percebido o que estava registrado ali.

- Monteiro Lobato? Viveu aqui? Morreu aqui? Esse livro que você segura é dele?

Não, era do João, o guia que nos alerta para não andar tão distraídos assim pelas ruas.

Tem mais. O livro mostra que nem só das memórias de Monteiro Lobato vive a Barão de Itapetininga. É preciso estar atento para outras delícias literárias.

Inaugurada em 1949 e um marco na época em que o centro era considerado chique, a Galeria Itá tem vários tipos de lojas no térreo e escritórios variados nos andares. O espaço mais surpreendente fica no nono andar e não é exagero chamar de paraíso dos livreiros. É a Livraria Calil Antiquária, o sebo mais antigo de São Paulo, segundo sua proprietária.

O guia "São Paulo Literalmente" conta um pouco da história da livraria e fala rapidamente sobre Maristela Calil, a proprietária. Senti, durante a leitura, que a livreira é uma pessoa muito simpática. Na visita, a sensação foi comprovada. Uma das melhores conversas dos últimos tempos.

O pai dela, Líbano Calil, deve ter sido uma das pessoas mais interessantes desse mundão. Era louco por livros e comerciante por natureza. Investiu a vida nisso. Passava o tempo todo no meio de seus milhares de exemplares e também entre escritores, que apareciam para os bate-papos. Como Monteiro Lobato.

E não é que a Barão de Itapetininga tem outra surpresa trazida à tona pelas pesquisas do meu amigo? É a Livraria Francesa, no prédio de número 275. Eu sei, eu sei, quem vive em São Paulo e gosta de literatura e cinema francês está cansado de saber onde fica essa pérola. Mas quem não está nesse grupo e não leu um guia como o do João não descobre tão facilmente o local, com vitrine localizada no interior do prédio.

Tudo em francês - filmes, livros, música e o atendimento, para quem precisa que assim seja. E, mais uma vez, uma atendente interessada em conversar sobre as belezas do centro, com muita simpatia.

Quem disse que não existe ternura em São Paulo?

Ternura e literatura resistem.