sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Tomie

O sol brasileiro que seduziu Tomie Ohtake refletiu cedinho no prédio moderno construído pelos filhos arquitetos da grande artista nipo-brasileira. Eu não sei se gosto daquele espelhado cor-de-rosa. Mas hoje gostei. Porque a luz, batendo no prédio, deixou a calçada rosada. Quase pink. Lá dentro, Tomie, de preto, óculos grossos, discreta também na despedida. Do lado de fora, o moço das coroas de flores não aderiu à comoção elegante.
- Vai, Corinthians.
Gritou, para um conhecido, entre uma entrega e outra.
Velho de guerra, um jornalista frilando falou sobre os velórios memoráveis de sua trajetória: Tancredo e Senna. O tom ácido, tão frequente nas redações, não escondeu de todo o orgulho. Ele fez parte da história.
Um dos filhos entrou numa obra de arte interativa para falar às tvs. Um jovem mostrou as tatuagens. Ergueu a barra da calça para mostrar. José Possi Neto seguiu a fila dos pêsames. Uma jovem oriental saiu apressada. Olhos vermelhos.
Li numa homenagem em rede social uma ótima definição para a artista: era a síntese de São Paulo.
Era sim, era muito isso.
E vai continuar.
Ontem à noite, a tradicional Caminhada Noturna das quintas-feiras foi mais sensacional do que as outras todas. Os caminhantes marcaram encontro com a banda do Sindicato dos Músicos, que abre o Carnaval na cidade.
Velhos músicos tocaram marchinhas também  antigas e todo mundo cantou e dançou no centrão belo, desesperado, sujo e fascinante. Bem na nossa frente, um painel colorido da artista, na Ladeira da Memória.
Ela gostaria da cena, acho eu.
E do rosa na calçada. Também do dia quente. 
Hoje o sol esquentou São Paulo. Sol de Tomie. 






sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Ron Mueck - a solidão encontra a multidão

A criação solitária está entre as curiosidades a respeito do artista australiano Ron Mueck, autor das esculturas hiper-realistas expostas na Pinacoteca de São Paulo. Ele gosta de criar sozinho, sem a necessidade de interagir com outras pessoas, pelo menos até o momento em que precisa de auxiliares. Prefere as fotos aos modelos vivos. Gosta do som ambiente e de ouvir rádio – nada de conversas.  

Não por acaso, suas esculturas humanas chamam a atenção por causa das expressões (e outros detalhes) que consegue reproduzir. E as expressões mostram solidão e tensão.
Como acontece onde as obras passam, em São Paulo a exposição atrai milhares de pessoas desde o início, em novembro. A fila vira o quarteirão – mas anda rapidamente, o que a torna fácil de enfrentar.

Eu e minha filha não chegamos a ficar entusiasmadas com as esculturas. Parecem grandes bonecos produzidos por um artista perfeccionista, capaz de transformar diversos materiais em pele, músculos, pelos, cabelos. O que mais impressiona são mesmo as expressões humanas.

Uma amiga alertou para o fato de que talvez seja interessante apreciar o talento de Mueck num ambiente mais tranquilo do que o das salas lotadas da Pinacoteca.

É verdade: no meio de uma multidão produzindo selfies sem parar, é difícil olhar com calma para as esculturas e perceber as nuances todas, a complexidade da arte.   

O australiano vem de uma família fabricante de brinquedos. O pai trabalhava com madeira. A mãe produzia bonecas de pano. Ele, de certa forma, continua no ramo. Transformou os grandes e pequenos brinquedos em arte.

É irônico que um artista criador de figuras aparentemente solitárias atraia multidões para apreciar seu trabalho. É irônico e é bom. O contraponto é pra lá de interessante.

Com os olhos e os ouvidos abertos e dispostos, a enorme fila em torno da Pinacoteca pode ser encarada como a primeira etapa da concorrida exposição. Ali, vivos e lutando para sobreviver, estão personagens que Mueck transformaria em esculturas de gestos tensos e olhares perdidos nos momentos de introspecção.

Eu escolheria a mulher de meia idade, culta, vestida de forma simples, explicando para a filha adolescente a origem da arquitetura do prédio.

- Os gregos usavam mármore no prédio todo. Os romanos só do lado de fora. Por dentro eram tijolos parecidos com os da Pinacoteca.

O museu de arte mais antigo de São Paulo está instalado no antigo edifício do Liceu de Artes e Ofícios, projetado pelo escritório do arquiteto Ramos de Azevedo. Tem acervo com cerca de cem mil obras e espaços para restauração, catalogação e educação.

Grandes painéis instalados no subsolo contam toda a trajetória do museu. Um charmoso café tem como principal atração a vista para o Jardim da Luz, onde esculturas estão misturadas à vegetação e velhas prostitutas ganham a vida.

É um passeio imperdível na cidade, com ou sem Ron Mueck.

Também escolheria os irmãos vendedores de sorvete. Aliás, sorvete não. Paletas mexicanas. Fabricadas em casa, pela mãe dos garotos. Eles esgotaram o estoque e mostraram que, mesmo no improviso, são profissionais. Estavam uniformizados e prontos a orientar os consumidores sobre a melhor forma de degustar uma paleta mexicana caseira.

Os humanos são atração dentro e fora da Pinacoteca.

Ron Mueck
De terça a domingo, das 10h às 20h
Quinta, das 10h às 22h
Praça da Luz – acesso fácil pelo metrô da Luz
  


sábado, 3 de janeiro de 2015

'Tim Maia', no teatro, foi o melhor musical

Sou praticamente uma fanática por Elis Regina. Considero a voz da cantora gaúcha uma das melhores de todos os tempos, no mundo inteiro. Junto a isso, ela era capaz de interpretações inacreditáveis. Tinha talento também para o teatro, dizem alguns especialistas. Acho que sim. Mas não só. Era uma artista que sentia de fato as letras. Então chorava, era irônica, debochada, gargalhava, tudo isso sem perder a qualidade. Além de tudo, teve enorme capacidade de escolher bem os compositores que interpretaria. E sorte por ter nascido na era musical em que nasceu.

Mesmo assim, "Elis, a musical" está apenas no terceiro lugar entre os musicais que assisti nos últimos tempos. Para o segundo lugar, escolhi "Cazuza - pro dia nascer feliz". E em primeiro, "Tim Maia - Vale Tudo". Por que? Questionei, sozinha, o meu próprio ranking. Cheguei a algumas conclusões:

1 - Os musicais sobre as vidas de Tim e Cazuza não escondem nada. As drogas e os efeitos delas são retratadas com fidelidade. A dificuldade de lidar com as personalidades complexas e difíceis também. Os rompantes, a irresponsabilidade, as fases decadentes, idem. São musicais mais completos, mais emocionantes. Em "Elis", nem tudo é retratado. A morte, do jeito que foi, por exemplo. E Elis, o mito, tem muito a ver com a morte do jeito que foi. Aos 36 anos, numa overdose acidental, no auge da carreira, com filhos pequenos e começando uma nova fase profissional e pessoal. Eu ainda não tinha idade ou inteligência suficiente para gostar de Elis quando ela partiu. Mas não esqueço a comoção geral daquele dia. Pular isso, portanto, é optar por deixar a história capenga.

2 - O talento fora do comum da cantora deixou um legado único. Ninguém se iguala a Elis. As duas intérpretes (Laila Garin e Lilian Menezes se revezam no musical) são brilhantes, mas cantar como Elis... É impossível. Por mais consciência que os fãs tenham disso, fica um gostinho de frustração. Não é muito bacana admitir. Mas fica sim.

3 -  Cazuza é um artista da minha adolescência. Eu amava Cazuza. Queria ter visto as baixarias dele no Baixo Leblon. Ainda não aceitei a morte precoce. Com o tempo, percebi que o cantor e compositor deixou uma obra pequena e algumas canções datadas. Em compensação, outras são eternas. Como "Codinome Beija-Flor", uma das minhas preferidas. Ver tudo de novo, numa produção teatral impecável, foi demais para o meu pobre coração.

4 - Não assisti o Tim Maia feito pelo neto de Silvio Santos. Quando fui ver o musical, o intérprete da vez era Danilo de Moura. Sensacional. Pensei: será mesmo que Tiago Abravanel supera esse outro ator tão talentoso? Como não vi os dois em cena, fica a dúvida. E uma constatação: na aparência, na musicalidade e até no vozeirão, temos vários Tins. Os dois do filme, os dois do teatro, uns que fazem shows e ganham a vida sendo Tim Maia. Claro, o compositor, o ritmista, o louco, foi apenas um.

5 - "Tim Maia-Vale Tudo" era quase um show. A plateia terminava dançando e cantando. Danilo Moura achou aquilo um tesão. E quem não acharia?

6 - Assisti o musical sobre Tim ao lado de um tijucano. Ele vibrava. "Falaram sobre a minha rua". "Conheço esse lugar". "Estudei nessa escola". Um bairro em que viveram Tim, Roberto e Erasmo, entre outros, só pode ser o máximo. Desde então - e também por outras razões - sou louca pela Tijuca que ainda não conheço.    

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Frei Caneca

Três coisinhas nada à toa sobre a Frei Caneca, uma das minhas ruas preferidas em São Paulo:


Número um 

Foi lá que Raul Seixas, a lenda, passou os últimos meses de sua vida intensa e curta. De bar em bar, entre um show e outro. Os mais velhos lembram do roqueiro quieto, nos balcões da vida.

Como assim, Raul andou pelas mesmas calçadas em que a gente passa apressada, carregando sacolas?

Número dois

Fica na Frei Caneca o alternativo Teatro e Bar Cemitério de Automóveis. Mário Bortolotto, o dramaturgo, o músico, outra lenda, é o dono do pedaço. Ali faz música, bebe e escreve.

Já passei e vi o Mário sentado na varanda, celular na mão, olhos na telinha.

Será que acompanhava a repercussão de um dos seus textos sinceros?

Acho que sim.

Número três

Logo após o Cemitério de Automóveis, tem uma escola de balé. A música clássica escapa pela janela e chama a atenção. Aí a gente olha e vê as bailarinas, clássicas, belas, incomuns na rua escura.

E que rua.

domingo, 12 de outubro de 2014

A infância, sob tensão, num prédio ocupado


Fotos: Su Stathopoulos

Sentada na escadaria do antigo Columbia Palace Hotel, na avenida São João, centro de São Paulo, a menina Maria Eduarda, a Duda, 9 anos, tenta encontrar alguma novidade nos três livros que possui, um deles didático e os outros dois de histórias infantis.

 “Eu gosto muito de ler, mas só tenho esses três livros e estou cansada deles”, revela, enquanto acompanha as tentativas do irmão mais novo, Pedro, 7, de jogar futebol num dos corredores do prédio.

Os dois irmãos são moradores de uma das 40 ocupações feitas por sem teto no centro de São Paulo. Vivem a rotina típica da infância: vão para a escola, brincam, frequentam cursos extras, levam bronca e, às vezes, brigam com amiguinhos.

No entanto, há um clima tenso no dia a dia dos pequenos. Os 200 moradores, alojados no prédio de seis andares desde o dia 3 de outubro de 2010, podem ser expulsos a qualquer momento por causa do processo de reintegração de posse que corre na Justiça de São Paulo. Os adultos falam sobre esse temor o tempo todo. As crianças percebem o nervosismo. O medo fica suspenso no ar.

“Esses dias faltei na escola. Mas não gosto de fazer isso. Queria ter ido”, conta Duda.

O dia da falta é simbólico para os militantes dos movimentos sem teto de São Paulo – e para a própria cidade. Duda não foi para a escola porque a avenida em que mora virou palco de uma guerra entre policiais militares e ocupantes do prédio vizinho, construído para ser sede do hotel Aquarius e então ocupado há seis meses por famílias parecidas com as da menina.

A reintegração de posse do dia 16 de setembro ocorreu em meio a desespero, bombas de efeito moral disparadas pela polícia, gritos, móveis e outros objetos jogados pelos moradores e um conflito que se espalhou pelas ruas da região central.

Bem em frente, no antigo Hotel Columbia, as crianças viram e ouviram tudo. Sentiram medo da violência e também de perder a moradia. Viveram uma tarde invadida pelo cheiro do gás de efeito moral e por sustos causados pelo barulho das bombas.

“Tenho medo de não ter onde viver com minha filha. Medo de precisar morar num lugar em que não encontre serviço para mim e escola para ela”, explica Luzilene dos Santos Silva, mãe de Raíssa, 6, ao justificar sua decisão de viver na região central de São Paulo, num prédio ocupado.  

Segundo a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), mais da metade da população mundial mora hoje em áreas urbanas. Isso inclui um bilhão de crianças. Muitas ainda não têm acesso a escolas, hospitais e áreas de lazer, uma realidade ainda comum nas periferias das grandes cidades.

De acordo com dados do FLM (Frente de Luta por Moradia ), fatores como os baixos salários, desemprego e trabalho informal, especulação imobiliária e finanças públicas “drenadas para o setor parasitário (agiotas e rentistas)” excluem os trabalhadores sem teto das regiões urbanizadas e os empurram para a periferia.

No centro de São Paulo, a vida das mães, pais e de seus filhos é um pouco mais fácil do que nos bairros periféricos. A região oferece uma ampla rede de serviços: escolas, hospitais, centros de lazer, museus, praças.

O filho mais velho da agente comunitária de saúde Vanessa Cristina de Oliveira do Prado, por exemplo, vai todo dia a pé e sozinho para a escola. O adolescente tem 14 anos e, nos quatro anos em que vive na ocupação da São João, já conseguiu frequentar cursos de bombeiro mirim, circo e computação.

O mais novo, de oito anos, costuma passar horas na biblioteca no próprio prédio e também já participou de saraus literários promovidos pelos sem teto. São comuns também os passeios culturais em grupo. 

“Coisas que na periferia são mais difíceis. Se eu sair daqui, não tenho para onde ir. Com o que ganho, pagaria só o aluguel. Aqui, conquistei muita coisa para os meus filhos”, diz a mãe.

E também para ela. Vanessa concluiu o ensino médio e agora planeja ir para a faculdade. Quer cursar farmácia. Ela e os filhos dividem dois cômodos no antigo hotel com outra família, formada por avó e neto. Na hora de dormir, é preciso colocar colchões no chão do quarto. O outro cômodo funciona como cozinha.

Segundo o advogado Benedito Barbosa, o Dito, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, a insegurança provocada pelo medo das reintegrações de posse é o principal problema das meninas e meninos que vivem nas ocupações urbanas.

“No Brasil há a prevalência do direito à propriedade e não do direito à moradia”, critica. “O país nunca teve uma reforma urbana. A lógica da expulsão dos pobres é antiga”.

Dito deixa claros os objetivos dos movimentos que ocupam prédios abandonados no centro de São Paulo: forçar o poder público a investir em projetos de moradias populares.

No dia 24 de agosto, a Prefeitura de São Paulo assinou convênio junto ao governo do estado para o lançamento de licitação de Parceria Público-Privada para habitações no centro expandido. Serão implantadas 14.124 unidades habitacionais. O projeto inclui também a instalação de equipamentos públicos, infraestrutura e áreas de comércio e serviços, com investimento total de R$ 3,5 bilhões.

Sonhos

Ao contrário do que podem pensar os que nunca entraram num prédio ocupado por sem teto, a organização e a limpeza são regras rígidas no prédio do antigo Columbia. Há controle também sobre o uso de álcool e atenção aos conflitos familiares.  

O hotel estava abandonado há quase duas décadas quando virou moradia popular. Homens, mulheres e crianças precisaram tirar muito lixo dos quartos e corredores. Também providenciaram uma reforma para poder usar os banheiros.

Num jardim de inverno do passado, o esforço coletivo transformou em área de lazer um espaço inundado por água suja e apelidado de piscina.  A anacrônica máquina de lavar do hotel, quase uma relíquia, hoje é usada como churrasqueira.

Os meninos e meninas do prédio têm a sorte de ter como vizinha a cenógrafa Nazaré Brasil, 48, uma ativista social preocupada em levar cultura para as crianças da ocupação.

“Quero despertar nas crianças o que elas têm de melhor”, explica.

Entre as atividades lideradas por Nazaré estão sessões num cineclube dentro do prédio, teatro, leitura, passeios, aulas e exposição de desenhos e pinturas.

O prédio todo é decorado com fotos artísticas e quadros produzidos pelos próprios moradores. Num dos passeios, as crianças fotografaram o centro e puderam expressar o pensam sobre a região onde moram. Na biblioteca, os livros infantis dividem espaço com as obras adultas.

“As crianças são discriminadas nas escolas e em outros locais que frequentam. A leitura é uma forma de fugir dessa realidade triste”, afirma Adalberto Rodrigues Soares, 42, um dos coordenadores da ocupação na avenida São João.

Endurecido pelas dificuldades da vida, Adalberto não resiste e chora ao falar sobre a tentativa de abrir o horizonte dos pequenos sem teto.

“É muito triste não ter sonhos”, diz.   

Alheio à tensão que percorre todos os espaços do prédio, Mateus, 8, exerce como ninguém o seu direito ao sonho. Anda de um lado para o outro com sua barraquinha infantil, ótima para as brincadeiras de faz de conta.

“Dá até para fingir que é uma casa”, alegra-se. 



Nas ruas, uma realidade cruel

Diego é o nome de “guerra” do adolescente de 16 anos, um dos andarilhos de São Paulo. Ele vive nos arredores da praça Dom Gaspar há dez anos. Não sabe – ou não revela – onde estão os pais. 

Aprendeu a pedir comida, água, bebida, dinheiro, roupa ou qualquer outra coisa para as pessoas que encontra no caminho.

A reportagem acompanhou uma tarde de Diego no centro de São Paulo. Em poucos minutos, ele conseguiu uma garrafa de água, biscoitos, refrigerante, sanduíches de mortadela e um elogio.

“Você é bonito”, disse a moça loira com quem o garoto conversou rapidamente. Ele piscou, numa resposta charmosa. Ficou feliz.

Mas o menino de rua também sabe conseguir o que quer sem pedir ou usar o seu carisma. Ele rouba e conta sem meias palavras os segredos de seu “ofício”.

“Pego os celulares dos bolsos e as pessoas nem percebem”, diz. “Essa sua bolsa, com a alça fininha, é um perigo. É só puxar”, afirma, em tom de alerta, para a repórter.

Diego não sabe ler ou escrever. Já foi para a escola, mas não deu certo. Rebelde, arrumava brigas e mais brigas. Foi expulso e nunca mais voltou.

Segundo Censo da População em Situação de Rua na Municipalidade de São Paulo, realizado em 2011 pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, 212 crianças e 221 adolescentes vivem em situação de rua na capital, a maioria na região central da cidade.

O pequeno Davi, 2 anos, faz parte desse grupo. Mas, ao contrário de Diego, vive ao lado dos pais, que perambulam pelas ruas centrais e aceitam qualquer tipo de bico ou esmola.

“Todo dia corro atrás. Engraxo sapatos, peço comida, faço qualquer coisa”, conta Wilson, 40, o pai da criança.

Segundo ele, durante a noite a família aluga um quarto, onde ficam as roupas e brinquedos de Davi. À noite, a criança fica num carrinho ao lado dos pais. Dá tchau, manda beijinhos e, com sua simpatia, ajuda a família a ganhar um prato de comida ou dinheiro.

“Mas ele tem tudo que precisa. Não pediu para nascer, então corro atrás para cuidar dele”, garante o pai.

Diego passou a infância sem ter alguém para “correr atrás” por ele. Não sabe o que é brincar.

“A minha brincadeira sempre foi bater nas outras crianças”, afirma.

Resposta ainda mais desconcertante é a do amigo do adolescente, um menino de 13 anos que também vive nas ruas do centro e se nega a dizer o nome.



“Minha brincadeira é usar drogas”, revela, com os olhos cerrados e a voz rouca de tanto cheirar cola e fumar crack.



quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Arte, memória, escombros e loucura no antigo hospital

As paredes descascadas e os corredores sombrios do antigo Hospital Matarazzo, na região da avenida Paulista, nunca mais saíram da memória de quem assistiu a peça "O Livro de Jó", nos anos 1990, com a interpretação impressionante do ator Matheus Nachtergaele. Nu e coberto de sangue cênico, Matheus encontrou no espaço o cenário ideal para a atuação visceral.

Este ano o ex-complexo hospitalar recuperou o que parece ser uma vocação para as artes. Até domingo, dia 12, recebe a exposição "Made By...Feito por Brasileiros", que impressiona tanto quanto a encenação teatral de anos atrás.

O hospital está abandonado há duas décadas e foi comprado por um grupo francês para ser transformado num complexo comercial e turístico, com hotel, lojas, restaurantes, etc. Antes disso, 100 artistas foram convidados a fazer intervenções em grande parte dos 27 mil metros quadrados do local.

O resultado é espantoso e imperdível, a começar pela bela arquitetura do complexo e pela sensação de que aquelas paredes carregam muitas histórias - dos nascimentos às mortes.

Uma delas pode ser ficção - ou não. A intervenção artística de Vik Muniz é genial. Ele usou um dos quartos para contar "O curioso caso de Agenor Andrade Filho", cuja ficha médica teria sido encontrada num cofre no porão do hospital, embaixo da antiga sala da diretoria.

Agenor foi um contador solteiro e hipocondríaco, conhecido dos médicos e enfermeiros do hospital. Numa de suas internações, no entanto, a equipe médica encontrou cálculos no rins, extraiu e mandou para exames detalhados. Agenor morreu, vítima de infecção generalizada. Acontece que o especialista que recebeu o vidro com os tais cálculos não viu nada ali dentro, apesar do barulho das pedras no recipiente.

A conclusão foi que o contador conseguiu materializar em seu rim pedras que não existiam. Diz o relato que o médico responsável levou o caso para congressos e foi ridicularizado. É ficção, certo? Mas não parece. A intervenção de Vik Muniz inclui documentos de Agenor, inclusive a certidão de óbito. Tem também uma carta com toda a sua história de saúde. Radiografias. Fotos. E o vidro com os cálculos invisíveis.

Também impressiona o trabalho realizado  em conjunto por Laura Vinci e José Miguel Wisnik na antiga lavanderia do hospital. Ela pendurou dezenas de papéis brancos que voam o tempo todo por causa do vento provocado por ventiladores. Wisnik preparou uma trilha musical perturbadora, assim como a visão dos escombros do local. Ao lado, litros e litros de água de reuso inundam outra parte da lavanderia, numa chuva assustadora e impactante na seca São Paulo.

Há muitos vídeos ao longo da exposição e o som deles percorre os corredores e quartos o tempo todo. São essenciais para as sensações difíceis de explicar para quem ainda não foi ver a "Made By". Entre tantos sons, um atrai em especial. É o barulho provocado pelo papel rasgado por uma artista que se desnuda em frente às câmeras e revela uma angústia palpável, pesada.

- Ela se matou aos 21 anos, pouco depois de produzir essa obra. Já faz algum tempo, mas ainda é uma artista contemporânea, explica o instrutor.

Outro artista, Hector Zamora, define sua intervenção no complexo hospitalar como um delírio. E é.. Ele levou dezenas de vasos de plantas para o andar superior do hospital. A partir dos janelões e das sacadas dos quartos, todos foram jogados ao mesmo tempo para um pátio, provocando barulho ensurdecedor. A encenação foi filmada e é exibida bem perto dos vasos espatifados e das plantas abandonadas à morte. Ou à vida, pois da devastação pode vir o renascimento, como Zamora explica aqui.

Banheiros, a intacta capela e até fossos de elevadores são ocupados por arte. Há loucuras de todos os tipos. Um exemplo: estátuas em ruínas de santos da capela foram levados para uma sala para a cura, à base de ervas. Um grupo de salas escuras assusta e atrai ao mesmo tempo, mas o que a gente encontra no final é acolhedor: puffs fofos e um vídeo em que músicos tocam e dão cores imaginárias a seus instrumentos.

Algumas dicas: use sapatos confortáveis para percorrer toda a exposição. Vá com disposição. E com a cabeça bem aberta.

O antigo Hospital Matarazzo fica na alameda Rio Claro, 190, Bela Vista.

A entrada é gratuita.





terça-feira, 16 de setembro de 2014

Guerra (e samba) no centro de São Paulo

Mãe de três filhos, Iara (o nome é falso, a pedido da entrevistada) morava há seis meses no prédio invadido na avenida São João, quase na esquina com a Ipiranga, no centro de São Paulo. Sabia que nesta terça-feira (16) de manhã os policiais chegariam com uma ordem de reintegração de posse, mas achou que daria para negociar e continuar morando ali.
"Eles entraram jogando bombas de gás e atirando com balas de borracha. Tive que sair pela janela com meus filhos e pular para o outro prédio', contou, chorando. Os filhos, de 16, 13 e 10 anos, escaparam sem ferimentos. Ela ajudou a retirar outras crianças do local e, sentada na calçada, contou que agora vai morar na rua.
Enquanto os moradores saíam ou eram retirados pela polícia após a resistência inicial, grupos de jovens usando a tática black bloc apareceram e começaram um conflito que se espalhou pelo centro de São Paulo.
"A nossa intenção não era guerrear e sim ficar no prédio", disse Sebastião Oliveira, um dos líderes dos sem-teto. "Mas apareceu um monte de gente e começou o vandalismo. Essas pessoas não tinham nada a ver com o momento".
Em bandos, mascarados e com pedaços de pedras e paus nas mãos, os jovens saquearam lojas, destruíram orelhões e lixeiras, formaram barricadas e colocaram fogos em objetos no meio da rua. Um ônibus articulado foi queimado em frente ao Theatro Municipal. Na rua Barão de Itapetininga, uma loja de celulares e uma lanchonete tiveram as portas destruídas.
As lojas fecharam as portas. Dezenas de pedestres se esconderam dentro de prédios e galerias. Durante toda a manhã, as bombas da Polícia Militar compuseram a trilha sonora de guerra na região central. Do alto, helicópteros da polícia seguiam os grupos e orientavam os policiais que estavam no chão.
"Vamos para a prefeitura. A rua é nossa", gritavam alguns jovens. "É o apocalipse", berrou um evangélico. "A guerra vai começar", anunciou um pedestre, correndo para aderir ao quebra-quebra.
Dezenas de pessoas fotografaram e filmaram tudo. Alguns usavam máscaras de proteção cirúrgica para escapar dos efeitos do gás lacrimogêneo.
No cruzamento da rua 7 de Abril com a Xavier Toledo, um grupo derrubou e destruiu uma cabine de fiscalização do transporte coletivo. Em meio à gritaria, o som de um pandeiro persistiu num samba fora de hora. E um morador de rua aproveitou para fazer o seu protesto.
"Esse é o país do futebol. A guerra não é aqui não. É só no Iraque", ironizou.
Na mesma região, um engravatado levou uma pedrada sem ter feito nada, apenas porque estava passando. Um cinegrafista também apanhou dos jovens enraivecidos. Do alto de outros prédios ocupados, pedras eram jogadas na polícia.
Segundo o comandante da operação da PM no centro, Glauco Silva de Carvalho, houve a tentativa de negociar com os ocupantes do prédio durante duas horas. No entanto, moradores começaram a jogar objetos nos policias e então veio o conflito.
O prédio ocupado é a antiga sede do Aquarius Hotel e fica próximo à esquina das rua Ipiranga com a avenida São João, um endereço que virou símbolo da cidade por causa de "Sampa", a canção em que Caetano Veloso declarou seu amor a São Paulo.
Duzentas famílias moravam ali.
"A gente até propôs pagar aluguel, mas os proprietários não quiseram", disse um dos ex-moradores. "Pagaríamos R$ 100 por mês, porque até reformamos o prédio".
São Paulo. A cidade que ergue e destrói coisas belas.